O jornal O Estado de S. Paulo (Estadão) publicou na manhã desta quarta-feira informação de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, teria feito diversas chamadas telefônicas ao presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, em um contexto relacionado à operação de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), conforme apurado junto a interlocutores do meio jurídico e financeiro.
De acordo com a publicação, Moraes teria telefonado seis vezes em um único dia para Galípolo para verificar o andamento do processo de aquisição do Master pelo BRB, operação que estava sob análise do BC.
Esses telefonemas fariam parte de uma sequência maior de diálogos entre o ministro e o chefe da autoridade monetária, totalizando, segundo a apuração, ao menos cinco conversas, das quais ao menos uma teria sido presencial.
Fontes que relataram os contatos afirmaram que tais conversas ocorreram em um momento de divergência interna dentro do Banco Central sobre a aprovação ou rejeição da operação, que pretendia salvar o Master após intervenção da autarquia.
O cenário envolvendo a venda do Master ao BRB ganhou atenção após a instituição financeira ter sido liquidada pelo Banco Central em 18 de novembro, em meio a investigações de fraudes que somaram bilhões de reais em ativos fictícios.
A repercussão da suposta pressão de um ministro do STF sobre a autoridade monetária motivou diferentes interpretações no meio político e jurídico, o que elevou o nível de escrutínio público sobre o caso.
O Estadão, em sua cobertura, registrou relatos de operadores financeiros e de pessoas próximas ao processo que confirmaram a frequência dos contatos entre Moraes e Galípolo.
Paralelamente, informações amplamente veiculadas em outras reportagens indicam que a esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, tinha contrato de prestação de serviços com o Banco Master, por meio de escritório de advocacia, enquanto se desenrolava a tramitação da operação junto ao BC.
Segundo essas reportagens, o contrato, firmado em 2024, previa pagamento de R$ 3,6 milhões mensais ao escritório da família Moraes, com vigência de até 2027, o que totalizaria R$ 129 milhões caso cumprido integralmente.
O teor e a frequência das ligações reportadas pelo Estadão contrastam com as declarações oficiais divulgadas por Moraes e pelo Banco Central na terça-feira, 23 de dezembro, em que ambos descrevem o teor dos encontros de forma distinta.
Em notas públicas, o ministro afirmou que os contatos com Galípolo ocorreram para tratar “em virtude da aplicação da Lei Magnitsky”, uma legislação de sanções que atingiu Moraes e sua esposa no exterior, e não para discutir assuntos relacionados à operação bancária.
O Banco Central, por sua vez, reconheceu ter havido conversas com o ministro, mas descreveu o tema dos diálogos de forma mais ampla, sem utilizar o termo “exclusivamente” ao se referir aos efeitos das sanções econômicas aplicadas pelos Estados Unidos.
Reportagens anteriores também indicaram que, antes da cobertura do Estadão, a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, já havia relatado ao menos quatro encontros entre Moraes e Galípolo, sendo um deles presencial.
Após a publicação de tais relatos, o ministro Alexandre de Moraes emitiu novas notas em que detalhou datas e circunstâncias de encontros com Galípolo, repetindo que não houve qualquer discussão sobre a venda do Master ao BRB durante esses encontros.
Na mais recente nota divulgada à imprensa, Moraes afirmou explicitamente que “inexistiu qualquer ligação telefônica” entre ele e o presidente do Banco Central, reforçando que os temas abordados foram exclusivamente relacionados à aplicação e efeitos da Lei Magnitsky.
A posição oficial sustentada pelo ministro tem sido repetida em diferentes comunicados, inclusive na defesa de que o escritório de sua esposa “jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central”.
A questão tomou dimensão política significativa no Congresso, com lideranças defendendo investigações mais aprofundadas sobre a relação de Moraes com o Banco Master e a atuação nos contatos com o Banco Central.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), por exemplo, anunciou a intenção de colher assinaturas para propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apure detalhadamente os fatos em torno da contratação do escritório da esposa do ministro e os diálogos com o BC.
Em meio às repercussões, o episódio também reacendeu debates sobre possíveis conflitos de interesse e a necessidade de transparência no relacionamento entre autoridades públicas e instituições financeiras em processo de regulação.
Até o momento, além das notas oficiais do ministro e do Banco Central, não há confirmação de investigação formal por parte das autoridades judiciais competentes sobre os contatos relatados nos jornais O Globo e Estadão, nem indicação de responsabilização até que os fatos sejam esclarecidos.
A divulgação dessas informações ocorreu enquanto o país acompanha de forma crítica as implicações institucionais e legais do caso, com debates acirrados sobre ética pública e a atuação de agentes estatais em processos de interesse econômico relevantes.

