A declaração de Donald Trump de que “meio que me decidi” sobre a Venezuela, em um momento de crescentes tensões políticas e econômicas no país, é um exemplo clássico da sua estratégia de comunicação geopolítica: criar incerteza para maximizar a pressão.
A Ambiguidade como Arma
A frase vaga e informal (“meio que me decidi”) não oferece qualquer pista sobre a natureza da decisão (seja ela sanções mais duras, apoio militar velado à oposição, ou até mesmo um recuo tático). Essa ambiguidade é proposital.
Ela tem um efeito imediato de guerra psicológica contra o regime de Nicolás Maduro, forçando Caracas a gastar recursos e energia para tentar decifrar a próxima jogada de Washington. O custo da incerteza é pago pelo adversário.
Além disso, a declaração é um sinal para os atores regionais (como Colômbia e Brasil) e globais (como Rússia e China), lembrando-os que a Venezuela continua sendo um foco de instabilidade e que qualquer movimento deles pode ser respondido por uma ação imprevisível de Washington.
O Foco no Ativo Político
A Venezuela tem sido um ativo político valioso na retórica conservadora norte-americana, usada frequentemente como um símbolo da falência do socialismo e uma ameaça à estabilidade hemisférica.
A reiteração do foco sobre o país em meio a outras crises globais garante que a questão venezuelana permaneça no centro do debate doméstico e reforça a imagem do líder como alguém que está disposto a tomar medidas decisivas contra governos autoritários.
O Ceticismo sobre a Ação
O ceticismo deve se ater à discrepância entre a retórica e a ação efetiva.
Enquanto a retórica é forte e decisiva, a implementação de uma política coerente e sustentável em relação à Venezuela esbarra em enormes desafios: o risco de desastre humanitário, a fragilidade da oposição e a dificuldade de deslocar um regime que tem apoio militar de potências como a Rússia e o Irã.
O que se testemunha é, na verdade, a gestão da crise através da retórica. A simples menção da “decisão” funciona como uma sanção não-verbal, intensificando o isolamento do regime venezuelano sem a necessidade de um compromisso militar ou logístico imediato. O poder da fala se torna, neste caso, o poder da política externa.

