Em uma pequena vila na província de Sichuan, no sudoeste da China, Zhang Liyong viveu um dos momentos mais angustiantes que um pai pode enfrentar. Quando sua filha, a menina de dois anos chamada Zhang Xinlei, foi diagnosticada com talassemia, uma doença grave que compromete a produção de hemoglobina, o custo do tratamento se mostrou rapidamente impagável para a família.
Diante da impossibilidade de arcar com os gastos médicos, Zhang chegou a tomar uma decisão trágica e angustiante: cavou com as próprias mãos uma pequena cova para a filha, com o objetivo de habituá-la à ideia de sua possível morte.
Todos os dias, ele levava Xinlei para brincar e descansar dentro desse espaço de terra, enquanto permanecia ao lado dela — uma forma de, segundo ele, prepará-la emocionalmente para o pior.
A mãe da criança, Deng Min, grávida de um segundo filho, acompanhava a rotina no local. Ela afirmou que o gesto do marido era a única alternativa que lhes restava, pois haviam esgotado todos os recursos financeiros para o tratamento, inclusive empréstimos de familiares e amigos.
Segundo Zhang, os custos já ultrapassavam 100 mil yuans, montante que ele não conseguiria mais suportar.
As imagens desse gesto paterno doloroso viralizaram nas redes sociais chinesas após serem publicadas em vídeo pela plataforma Pear Video.
Comovidos pela situação, internautas iniciaram uma onda de solidariedade. Doações começaram a chegar por meio de campanhas de financiamento coletivo, ajudando a aliviar a carga financeira da família.
Enquanto buscavam uma solução médica, o casal decidiu ter um segundo filho. A justificativa veio de um conselho médico: o sangue do cordão umbilical desse novo bebê poderia eventualmente salvar Xinlei.
Ainda assim, a ciência cobra seu preço. O procedimento de coleta e preservação de células-tronco, bem como o transplante, exigiria recursos adicionais que eles não tinham.
Zhang disse, com pesar, que não via outra saída: “Temos sido levados a um canto. Não há outra opção.”
O relato preocupa especialistas em saúde pública, pois revela fragilidades no sistema de seguro rural da China e na proteção financeira de pacientes com doenças crônicas em áreas menos favorecidas.
A história também suscitou debates éticos acalorados. Algumas vozes críticas questionaram se levar a filha ao túmulo improvisado poderia trazer danos psicológicos à menina.
Do outro lado, muitos destacaram a coragem de Zhang Liyong — um pai disposto a fazer tudo por sua filha, por mais extremo que fosse o gesto.
A repercussão internacional foi significativa. O registro da angústia familiar tocou milhões de pessoas, ampliando a discussão sobre o acesso a tratamentos para doenças raras na China rural.
Para Zhang, o ato de cavar a cova não foi um sinal de resignação, mas sim uma expressão de amor desesperado. Ele confessou que, pela dor, sentia que só podia acompanhar a filha até o fim, mesmo que isso significasse acompanhá-la em sua morte.
A campanha de doações, ainda que bem-sucedida, não eliminou todos os riscos. O futuro da menina continuava dependendo da possibilidade de um transplante, que exigia compatibilidade com o sangue do novo irmão.
O caso também atraiu atenção para os bancos de sangue de cordão umbilical na China, que armazenam células-tronco que podem tratar doenças hematológicas graves.
Mesmo com a ajuda financeira externa, o desafio logístico e médico para realizar o transplante permanece alto, especialmente em regiões rurais com recursos limitados.
Essa história dolorosa evidencia a lacuna entre a tecnologia médica avançada e a desigualdade no acesso a tratamentos em diferentes comunidades.
Para Zhang e sua família, cada dia é marcado por angústia, mas também por esperança: a esperança de que a nova criança possa representar uma chance real para a filha doente.
O gesto extremo do pai — cavando uma cova para sua filha viva — simboliza não apenas desespero, mas também a profundidade do amor paterno e a força de uma família diante da adversidade.

