Durante uma viagem oficial a bordo do Air Force One no dia 12 de outubro de 2025, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, protagonizou um momento carregado de honestidade e autocrítica ao falar sobre suas perspectivas espirituais. Questionado por repórteres se seu recente papel como mediador de um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas poderia melhorar suas chances no além, o mandatário respondeu: “Não acho que nada vá me levar ao céu. Talvez eu não esteja destinado a entrar.” A declaração gerou grande repercussão, tanto na imprensa internacional quanto nas redes sociais.
Esse não é o primeiro momento em que Trump aborda o tema do destino eterno. Desde o atentado de 2024, quando sobreviveu a um ataque em Butler, na Pensilvânia, ele tem associado sua trajetória política a uma missão quase divina. Ele chegou a afirmar que teria sido “salvo por Deus para tornar a América grande novamente” e que, por isso, sente uma responsabilidade espiritual em conduzir seu país em direção à paz.
Mesmo assim, o presidente reconheceu que seus esforços para fomentar a paz global, inclusive em conflitos como o da Rússia com a Ucrânia e a mediação recente no Oriente Médio, podem não ser suficientes para garantir uma “entrada celestial”. “Não tem nada que vá me levar ao céu”, repisou em tom de brincadeira, antes de, com certo tom de melancolia, concluir: “E isso é algo que me preocupa.”
A frase ilustra uma mudança no tom de Trump. Durante toda sua carreira pública, suas declarações sobre a vida após a morte variaram radicalmente. Em entrevistas mais antigas, chegou a afirmar que não acreditava em céu ou inferno – apenas que “vamos para algum lugar”. Agora, já em outra fase da vida, admite que sua salvação eterna está longe de ser garantida e que muito de suas ações políticas podem não ser suficiente para mudar isso.
Sua declaração ocorre em um período de intensos debates sobre sua relação com a fé. Trump tem aprofundado laços com líderes evangélicos e ampliado programas oficiais como a iniciativa “America Prays”, que estimula cidadãos a dedicarem tempo à oração em prol da nação. Ao falar sobre esse projeto, chegou a dizer: “Não há razão para ser bom, se for para ninguém ver lá atrás o que foi feito. Mas se você quer provar que merece o céu, isso é importante.”
Apesar das controvérsias, incluindo críticas de líderes religiosos por suas posições sobre imigração e separação entre Estado e Igreja, Trump mantém apoio substancial entre protestantes evangélicos, um dos pilares de sua base política. Pesquisa recente indica que mais de 80% desse grupo aprova sua performance presidencial, um número muito acima da média geral de aprovação.
Em suas reflexões recentes, o presidente também mencionou episódios de violência e guerra para justificar suas ações. Ele criticou a gestão anterior por falhas que, segundo ele, acabaram permitindo conflitos como o russo-ucraniano, e disse acreditar que, se tivesse permanecido no poder, seu governo poderia ter evitado mortes em massa. Frases assim misturam autodefesa política e sua filosofia pessoal sobre propósito.
A sinceridade incomum do presidente sobre o tema repercutiu amplamente. Nas redes sociais, a declaração foi descrita por alguns como “a mais honesta que já fez”, enquanto outros ironizaram a falta de otimismo. Há quem considere que o comentário revela insegurança espiritual, e quem acredite que seja parte de sua estratégia política para reforçar uma narrativa de missão divina ainda não cumprida.
Alguns líderes religiosos reagiram ao episódio com cautela. Por outro lado, figurinhas políticas oposicionistas aproveitaram a deixa para criticar Trump por ter centrado sua motivação em recompensa celestial, ao invés de valores éticos ou pragmáticos. A deputada texana Jasmine Crockett, por exemplo, ironizou a afirmação dizendo estar “feliz em concordar com ele”, afirmando que talvez nenhum dos dois chegue a céu algum.
Na mesma coletiva em que abordou seu destino espiritual, Trump brincou sobre estar “tão perto do céu quanto ao voar no Air Force One”. A metáfora, além de revelar seu humor característico, reflete a confusão interna entre o político e o religioso em sua visão de mundo: para ele, progresso geopolítico e redenção espiritual estão entrelaçados.
O episódio trouxe novamente à tona uma discussão antiga: qual é o papel da fé na vida e nos intentos de Trump? Sua trajetória mostra mudanças dramáticas. Quando questionado nos anos 1990 sobre o destino após a morte, disse não acreditar em céu ou inferno. Hoje, no auge de sua carreira política, parece atribuir ao destino espiritual um peso considerável em suas ações.
Essa evolução coincide com momentos de crise. Após sofrer um atentado e passar por períodos críticos de saúde e controvérsias políticas, Trump intensificou seu discurso religioso. Em muitos momentos, utilizou a fé como escudo e ferramenta de legitimidade, o que fortaleceu sua conexão com a ala conservadora religiosa e alimentou suas ambições políticas.
Mesmo reconhecendo que sua entrada no céu pode não acontecer, Trump insiste que “fez o melhor que pôde” e que ajudou a melhorar a vida de milhares de pessoas. Ele também afirma que se sente impulsionado por um propósito maior – “fazer a América grande novamente” – que ele vê como um mandato divino. Esse discurso reflete a complexidade de quem se encontra no epicentro da política mundial e da fé pública.

