A proposta de trazer ao Brasil o presidente de Nayib Bukele — da El Salvador — como convidado para uma audiência sobre segurança pública mobiliza setores do espectro político de direita no país. O movimento ganhou força a partir de requerimentos protocolados no Senado Federal, com o objetivo de ouvir Bukele ou seus representantes sobre a estratégia de combate ao crime adotada em seu país. Segundo a notícia, o senador Magno Malta, da bancada de direita, apresentou requerimento para que Bukele participe da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Brasil.
A temática central desse convite é o modelo de segurança pública que Bukele implementou em El Salvador, caracterizado por forte presença militarizada, amplas detenções e medidas de emergência. No Brasil, esse modelo é apresentado por alguns como “exemplo” ou referência a ser explorada, especialmente em discursos conservadores que cobram respostas mais duras ao crime.
Por outro lado, há críticas e questionamentos de constitucionalistas e organizações de direitos humanos quanto à compatibilidade desse tipo de abordagem com o Estado de Direito e com garantias fundamentais. Um dos principais críticos é Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou que “há pessoas querendo se inspirar em Bukele” e advertiu que isso “não cabe no Brasil”.
A articulação de chamada ao presidente salvadorenho ocorre em meio ao debate sobre como o Brasil enfrenta desafios persistentes de violência e criminalidade. A direita política aposta nesse tipo de pauta como diferencial eleitoral, sugerindo que soluções mais rigorosas podem ter apelo popular — mesmo que levantem dilemas institucionais. A figura de Bukele surge nesse contexto como símbolo de eficiência no combate ao crime, para alguns, ou de retrocesso democrático, para outros.
Conforme o requerimento da CPI, a proposta vai além de mero convite: inclui a possibilidade de deslocamento oficial de delegação brasileira à El Salvador para conhecer “in loco” as políticas de segurança implementadas no país centro-americano. Essa diligência ainda depende de aprovação da comissão e de coordenação com o Ministério das Relações Exteriores.
Entre as políticas que atraem atenção destaca-se o recurso ao estado de exceção, a prisão em massa e o controle social ampliado. Bukele decretou em 2022 um regime de emergência para frear a escalada de homicídios e controlar gangues no país, o que gerou resultados expressivos em número de vidas supostamente salvas, segundo o governo, mas também gerou denúncias de prisões arbitrárias.
Para muitos analistas, a questão chave no Brasil é saber se esse tipo de modelo seria passível de replicação sem ferir preceitos constitucionais e direitos humanos. A realidade institucional, os antecedentes de violência e o ambiente de segurança brasileiros são bastante diferentes dos de El Salvador — o que torna a generalização arriscada.
Na prática, o convite a Bukele representa uma guinada estratégica da direita brasileira, que busca apresentar à opinião pública uma alternativa ao modelo tradicional de segurança. A esperança é que um gestor com reconhecimento internacional nesse tema fortaleça a legitimidade da agenda. Porém, isso também expõe fragilidades — inclusive ao colocar no centro do debate um governante cuja trajetória é controversa.
Há ainda o risco de polarização reforçada. Enquanto segmentos da direita aplaudem a iniciativa, setores da sociedade e especialistas alertam para o perigo de abrir espaço para modelos autoritários, em que o combate ao crime se confunde com o enfraquecimento de controles institucionais. A apropriação de Bukele como referencial já é alvo de críticas no Brasil.
No plano diplomático, a convocação exige coordenação com El Salvador. Embora o relacionamento bilateral não apresente entraves insuperáveis, trazer um líder estrangeiro para prestar depoimento em CPI exige adequações protocolares, logísticas e jurídicas. Ainda que a proposta seja simbólica, ela pode desencadear repercussões no âmbito internacional.
Para a sociedade brasileira, o debate se resume a duas perguntas: como reduzir a violência de forma eficaz, e quais os limites aceitáveis para isso em uma democracia. O modelo de Bukele já demonstra resultados numéricos no país dele, mas também suscita alerta quanto à liberdade de imprensa, direitos civis e independência judicial.
No campo legislativo, o tema poderá servir como mote para eleições. Vereadores e deputados alinhados ao discurso de “lei e ordem” apontam para a vinda de Bukele como sinal de comprometimento com uma agenda mais dura. Por outro lado, opositores advertem que focar em personalidades internacionais pode desviar do essencial: reformas estruturais e investimentos em prevenção.
Há também implicações práticas para a segurança pública: se o Brasil decidisse adotar elementos do “modelo Bukele”, seriam necessárias adaptações a sistemas judiciais, de controle e orçamento que são substancialmente distintos. Isso poderia passar por mudanças legais e revisão de pactos federativos, implicando em riscos institucionais e operacionais.
Uma eventual visita de Bukele ao Brasil ou de delegação brasileira a El Salvador acenderá debates em mídia, Congresso e academia. A notoriedade do nome reforça o símbolo — e com isso o impacto midiático será elevado, exigindo que os operadores da pauta estejam preparados para questões como direitos humanos e institucionalidade.
Entre os defensores da iniciativa está a promessa de “uma guerra ao crime mais ofensiva”, remetendo à retórica de Bukele de que “o Estado deve garantir o direito à vida acima de tudo”. Em visita recente a outro país, ele disse que “o direito mais importante é o direito à vida” e que a sociedade precisa se mobilizar inteiramente para isso.
Do lado crítico, questiona-se se o Brasil está disposto a abrir mão de garantias constitucionais em nome de eficácia na segurança. O debate ultrapassa o discurso de “bandido bom é bandido morto” e entra no campo da democracia, separação de poderes e da vigilância sobre o uso da força estatal.
A pauta também suscita reflexão sobre a imagem internacional do Brasil. Associar-se publicamente a um governo que enfrenta graves acusações de abuso de poder pode gerar repercussões diplomáticas e de reputação. Há custo político em escolher referências, e Bukele já está no centro de controvérsia global.
Em resumo, a proposta de trazer Bukele ao Brasil abre um capítulo novo no debate sobre segurança pública, direito e governança. Não se trata apenas de apresentar um nome forte como “solução”, mas de haver clareza quanto aos fins, aos meios e aos limites.
Conclui-se que, mais do que o símbolo ou o espetáculo mediático, o que estará em jogo é se o Brasil quer buscar caminho inspiracional externo para sua própria crise de segurança — e se está disposto a fazê-lo sem fragilizar instituições. A convicção de que “funciona” não basta: a compatibilidade com o pacto democrático importa.
Este tema continuará a evoluir nos próximos meses à medida que a CPI avance, deputados e senadores debatam o requerimento e possivelmente alinhem agendas de segurança e direitos. O vigilante público acompanhará como se dará o passo concreto: convite, visita, discussão ou mudança de paradigma.

