Ramon Dino conquistou o mundo.
Mas, ironicamente, não poderá trazer o prêmio para casa.
O fisiculturista brasileiro, vice-campeão do Mr. Olympia 2025, decidiu manter nos Estados Unidos o valor de R$ 550 mil recebido pela competição — evitando o pagamento de um imposto de 27,5%, equivalente a R$ 151 mil, caso transferisse o montante ao Brasil.
A justificativa, dada pela esposa do atleta nas redes sociais, é pragmática: “Seria burrice pagar duas vezes”.
E de fato, o raciocínio é simples — e perturbadoramente revelador.
O caso de Dino não é sobre musculatura, mas sobre a fragilidade estrutural do país que ele representa.
Mostra como o sucesso brasileiro, quando cruza fronteiras, é recebido com desconfiança fiscal e burocracia excessiva.
A tributação brasileira, complexa e pouco adaptada à nova economia global, transforma o mérito em cálculo e o orgulho nacional em dilema contábil.
O Estado, que deveria incentivar o talento exportado, acaba punindo-o com o peso de uma máquina arrecadatória insaciável.
Há uma ironia cruel nisso.
Enquanto o Brasil celebra seus heróis esportivos, trata-os como potenciais devedores quando triunfam fora do país.
Ramon Dino, que treina em silêncio e inspira milhões com disciplina e resiliência, se vê agora como protagonista involuntário de um debate econômico.
Seu corpo se tornou símbolo não só de força física, mas de resistência à ineficiência estatal.
Ao deixar o prêmio rendendo no exterior, ele age com racionalidade financeira, mas o gesto expõe um problema sistêmico.
Não se trata de “fugir de imposto”, e sim de escapar de um sistema que pune quem prospera.
O episódio também lança luz sobre a mentalidade tributária brasileira, que ainda associa sucesso à obrigação de “compensar” o Estado — como se o mérito individual fosse uma afronta coletiva.
Essa lógica, herdada de um modelo fiscal ultrapassado, sufoca o empreendedorismo, o esporte e a cultura.
Enquanto isso, países que acolhem o talento com incentivos o transformam em ativo nacional.
Aqui, o mesmo talento é cercado por planilhas, siglas e formulários.
Ramon Dino venceu no palco, mas seu prêmio foi aprisionado pela burocracia.
O corpo que o levou ao topo mundial não é suficiente para carregar o peso da tributação brasileira.
O que deveria ser um símbolo de orgulho nacional tornou-se um espelho do nosso labirinto fiscal.
E talvez o verdadeiro troféu, neste caso, não seja o de fisiculturismo — mas a coragem de mostrar que, no Brasil, o imposto pesa mais que o músculo.

