Há decisões que funcionam como cartão de visitas. Colocar o aumento salarial do próprio funcionalismo como primeira pauta após o recesso é uma delas.
Foi contra esse gesto político — mais do que contra números isolados — que o deputado Kim Kataguiri se insurgiu no plenário nesta terça-feira (03).
O reajuste aprovado para servidores da Câmara e do Senado pode ultrapassar R$ 1 bilhão em impacto fiscal. O dado, por si só, já constrange.
Mas o incômodo maior está nos detalhes. O pacote inclui mecanismos que permitem pagamentos acima do teto constitucional, os chamados supersalários.
Na prática, trata-se de uma engenharia conhecida: penduricalhos legais que transformam exceções em regra.
Kataguiri foi direto ao ponto. Argumentou que o benefício alcança uma elite do funcionalismo, já situada no topo da pirâmide salarial do Estado.
Não é um ataque ao servidor público em abstrato. É uma crítica à lógica de autoproteção institucional.
Enquanto o discurso oficial fala em responsabilidade fiscal, o Parlamento inaugura o ano aumentando a própria folha.
O contraste não passa despercebido — especialmente fora de Brasília.
O deputado também questionou a forma. Defendeu votação nominal, mais transparência, mais exposição.
Nesse ponto, o silêncio do plenário fala alto. Votações simbólicas costumam esconder consensos constrangedores.
Segundo Kataguiri, parlamentares de diferentes correntes ideológicas se uniram para aprovar o reajuste.
A esquerda e a direita, tão ruidosas no discurso público, encontram harmonia quando o tema é o próprio bolso.
Essa convergência revela algo estrutural: o corporativismo legislativo resiste melhor do que qualquer polarização.
O argumento de “valorização do servidor” aparece como escudo moral. Mas ele se esvazia quando aplicado apenas aos que já ganham mais.
Valorização seletiva aprofunda desigualdades, não as corrige.
Há também o efeito simbólico. Em um país onde a renda média mal cobre o básico, supersalários corroem a confiança institucional.
Não é apenas uma questão contábil. É uma questão de legitimidade.
Kataguiri classificou a medida como desrespeito ao contribuinte, especialmente à população de menor renda.
Aqui, o discurso toca um nervo sensível: quem paga a conta não senta à mesa da decisão.
O Congresso tem o direito legal de legislar sobre seus quadros. O problema é quando esse direito ignora o contexto social.
Decisões legais podem ser politicamente míopes.
O reajuste passa. O impacto fiscal fica. A sensação de distanciamento entre representantes e representados se aprofunda.
No fim, a crítica de Kataguiri não é só sobre salários. É sobre prioridades.
E prioridades, em política, revelam muito mais do que discursos inflamados.
Quando o Congresso começa o ano olhando para dentro, o país entende o recado.

