Deputado Kim Kataguiri apresentA um projeto de lei para mudar a lei e permitir prisão perpétua com cr*mes hed*ondos como ped*filia, est*pro, fem*nicídio e tráf*co de dr*gas

O Brasil deve adotar a prisão perpétua?

 

A proposta apresentada por Kim Kataguiri (União Brasil-SP) reabre uma ferida constitucional: a vedação a penas perpétuas.

 

Hoje, a Carta de 1988 estabelece limites claros — nenhuma pena pode ser de caráter perpétuo. Essa cláusula foi pensada como proteção contra abusos do Estado.

 

Ao propor a prisão perpétua para crimes hediondos, Kataguiri desafia não apenas a lógica penal, mas também o pacto social firmado na redemocratização.

 

O argumento central é sedutor: penas mais duras significariam mais justiça e, consequentemente, mais segurança.

 

Mas a experiência internacional lança dúvidas sobre essa equação. Países com regimes perpétuos não se tornaram, por isso, imunes à violência.

 

A prisão perpétua, em muitos contextos, é mais um gesto simbólico do que uma ferramenta eficaz de redução do crime.

 

No Brasil, onde o sistema carcerário já colapsou sob a lógica da superlotação, a medida pode significar apenas prolongar o inferno do encarceramento sem perspectiva.

 

O discurso da “sensação de segurança” é revelador. Não se fala em políticas de prevenção, mas em oferecer ao público uma resposta emocional diante da barbárie.

 

A proposta também cria um dilema ético: até que ponto a sociedade aceita eliminar a possibilidade de reabilitação?

 

Ao defender a prisão perpétua, Kataguiri se ancora na ideia de que alguns crimes são irreversíveis e, portanto, devem gerar punições igualmente irreversíveis.

 

Mas essa lógica ignora a complexidade do sistema penal, onde penas severas convivem com seletividade e desigualdade na aplicação da justiça.

 

Não se trata apenas de punir crimes hediondos, mas de refletir sobre quem, na prática, será condenado a morrer na prisão.

 

Historicamente, as medidas de endurecimento recaem de forma desproporcional sobre os mais pobres e vulneráveis, enquanto elites têm acesso a recursos jurídicos que reduzem sentenças.

 

O Congresso terá de decidir se a mudança é compatível com o espírito da Constituição ou se representa um retrocesso autoritário em nome da comoção popular.

 

Mesmo que avance, a proposta exigirá maioria qualificada em duas Casas, algo politicamente improvável no curto prazo.

 

Ainda assim, o debate não deve ser subestimado. Ele sinaliza um deslocamento cultural: a sociedade cansada da violência pede respostas imediatas, e alguns políticos oferecem soluções de impacto.

 

O problema é que impacto não é necessariamente eficácia.

 

O desafio brasileiro continua sendo equilibrar justiça, segurança e humanidade — sem ceder à tentação de respostas fáceis para problemas complexos.

 

No fim, a pergunta que permanece é esta: queremos um país mais seguro ou apenas mais punitivo?

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