Na última terça-feira, dia 26 de agosto de 2025, o deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ) encaminhou uma notícia-crime à Procuradoria-Geral da República (PGR), acusando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de práticas racistas em função de declarações feitas durante um evento em Sorocaba (SP).
O cerne da denúncia está numa declaração em que Lula comparou o sorriso de um homem negro desdentado ao de uma mulher branca — “bonitona” — retratada em campanha institucional em uma revista exibida no exterior. Para Lopes, tal comentário evidencia tom depreciativo e estereotipado, ao sugerir que a imagem de pessoa negra com condição estética desfavorecida não refletiria bem o Brasil.
No documento, o parlamentar ressalta que esse episódio não é isolado. Ele apresenta três casos, entre os anos 2023 e 2025, onde o presidente teria escolhido palavras que reforçam estigmas raciais, segundo sua interpretação.
A denúncia solicita formalmente que a PGR analise os fatos, e se considerar consistentes, apresente denúncia junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), com base na Lei n.º 7.716/1989, que caracteriza o crime de racismo como inafiançável e imprescritível.
A repercussão pública foi imediata. Segundo reportagem da Gazeta do Povo, trata-se da terceira vez que o deputado acusa Lula de expressar declarações com teor discriminatório.
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No texto encaminhado à PGR, Lopes contesta diretamente a colocação de Lula ao solicitar que determinada imagem fosse retirada de circulação, declarando que o conteúdo seria preconceituoso, por expor “um senhor negro sem dente” representando o Brasil no exterior
Para embasar a caracterização de padrão de conduta, o deputado descreve os três episódios referidos: 2023 em Cabo Verde, 2024 em São Bernardo do Campo e 2025 em Sorocaba. A ideia é evidenciar recorrência, não meras falas isoladas.
Em Cabo Verde, no ano de 2023, Lula teria expressado “profunda gratidão ao continente africano por tudo o que foi produzido durante 350 anos de escravidão”, o que Lopes interpreta como relativização da violência histórica.
Já em 2024, em um evento em São Bernardo do Campo, o presidente se referiu a uma jovem negra presente no palco dizendo que “uma afrodescendente assim gosta de um batuque de tambor”, frase entendida como estereotipada.
Por fim, o caso de Sorocaba, em agosto de 2025, onde Lula comentou sobre a escolha editorial de uma revista com foto de um homem negro sem dentes ao lado de uma senhora “bonitona” em campanha internacional, foi o gatilho da ação formal .
A iniciativa de Lopes reflete uma estratégia recorrente da bancada do PL de buscar respaldo judicial para desmontar falas judicialmente questionáveis do presidente.
Além da notícia-crime, o deputado protocolou um pedido de impeachment na Câmara, requerendo que o tema seja levado ao plenário e debatido em votação formal.
Ainda não há decisão pública da PGR sobre a abertura de investigação, nem definição sobre como o STF poderá se posicionar, caso receba eventual denúncia.
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, defendeu Lula dizendo que sua fala foi, na verdade, uma crítica ao estigma das pessoas negras e ao descaso histórico com políticas públicas de saúde bucal, ressaltando a criação do programa Brasil Sorridente.
A repercussão se estendeu também para o ambiente político, reacendendo debates sobre responsabilidade no discurso institucional, liberdade de expressão e os limites do discurso presidencial sobre minorias.
O contexto político está cada vez mais tenso. Cada declaração de Lula é objeto de escrutínio por adversários, enquanto aliados interpretam que suas falas são injustamente distorcidas fora de contexto.
Veja também: reportagem da Gazeta do Povo sobre o protocolo de notícia-crime e a terceira acusação
Veja também: análise do Poder360 sobre o pedido de impeachment protocolado pelo deputado Hélio Lopes .
O episódio reforça a importância de avaliar o discurso público com precisão jurídica e política, sobretudo quando envolve líderes com ampla cobertura midiática e institucional.
Em suma, o caso exemplifica como falas controversas de autoridades quase sempre escapam do âmbito simbólico para alcançar desdobramentos institucionais. A resposta da PGR e eventual atuação do STF poderão indicar se o episódio avança para a esfera criminal ou permanece no campo da disputa política.

