É possível que um comprimido, vendido sem receita e presente em praticamente todos os lares, esteja ligado ao aumento de casos de autismo?
Essa é a pergunta incômoda que ganha contornos oficiais nos Estados Unidos, à medida que o Departamento de Saúde prepara um comunicado sobre o uso do Tylenol — nome comercial do paracetamol — durante a gestação.
A hipótese não é nova. Estudos observacionais há mais de uma década sugerem correlação entre o consumo do analgésico e maior incidência de distúrbios neurológicos em crianças.
O problema é que correlação não é causalidade. Mulheres que recorrem ao Tylenol podem estar tratando dores, febres ou inflamações que, por si mesmas, já afetam o desenvolvimento fetal.
Mesmo assim, a repetição dos dados em diferentes países chamou atenção de reguladores. O risco, ainda que não comprovado, é considerado relevante demais para ser ignorado.
A situação coloca autoridades em uma encruzilhada. Deixar de alertar seria irresponsável; mas confirmar publicamente a associação pode gerar pânico em milhões de gestantes.
Aqui entra o componente político. O Tylenol é um dos medicamentos mais consumidos no mundo, com forte lobby da indústria farmacêutica. Qualquer restrição afeta mercados bilionários.
Ao mesmo tempo, a pressão de grupos de pais de crianças autistas não pode ser subestimada. Eles veem na regulação tardia um eco do que ocorreu com o cigarro e o amianto: alertas abafados em nome do lucro.
Há também o desafio da comunicação. Como explicar a nuance científica em uma era de manchetes simplificadas? A frase “Tylenol pode causar autismo” circula mais rápido do que “estudos inconclusivos apontam correlação”.
Seja qual for o desfecho, o debate já lança luz sobre um dilema central da medicina moderna: até que ponto expomos a população a potenciais riscos em nome da conveniência terapêutica?
O paracetamol é considerado seguro justamente porque não tem os efeitos colaterais agressivos de outros analgésicos. Proibi-lo pode levar gestantes a alternativas mais perigosas.
Por outro lado, ignorar sinais de alerta seria repetir erros históricos. A talidomida, nos anos 1960, também era vista como inofensiva — até que milhares de crianças nasceram com malformações.
A analogia não deve ser levada ao pé da letra. A evidência contra o Tylenol é mais frágil. Mas serve como lembrete de que a ciência é, por definição, provisória.
Essa precariedade, porém, não combina com o imediatismo das redes sociais, onde cada estudo preliminar vira verdade definitiva.
O comunicado do Departamento de Saúde será, portanto, mais do que técnico: será um teste de como instituições públicas lidam com a incerteza em tempos de polarização.
Se falhar, abre espaço para charlatanismo e teorias conspiratórias. Se acertar, pode estabelecer um novo padrão de transparência científica.
No fim, o caso Tylenol não é apenas sobre analgésicos ou autismo. É sobre confiança. Confiança na ciência, nos reguladores e na capacidade da sociedade de conviver com verdades parciais.
E talvez essa seja a lição mais difícil: viver com a dúvida pode ser mais saudável do que se agarrar a falsas certezas.

