Por que uma tragédia precisa de um megafone digital para mobilizar solidariedade?
A pergunta se impõe quando uma influenciadora como Deolane Bezerra entra em cena pedindo, publicamente, o contato da família de Tainara — a jovem atropelada e arrastada pelo ex-companheiro em São Paulo.
O pedido não ficou restrito a um story.
Ele se espalhou como pólvora.
Em minutos, milhares de seguidores começaram a compartilhar informações, marcar conhecidos, criar correntes improvisadas de busca.
Não foi apenas uma manifestação de apoio.
Foi a transformação da dor alheia em pauta coletiva.
A cena diz muito sobre o tempo em que vivemos.
Uma época em que a solidariedade depende menos de instituições formais e mais da rapidez com que uma emoção se torna viral.
Quando Deolane convoca, não mobiliza apenas fãs.
Mobiliza uma espécie de “exército civil” sempre pronto a reagir, ainda que movido por impulsos afetivos mais do que por estruturas organizadas.
Esse fenômeno pode ser lido por dois ângulos.
O mais evidente é o humano: alguém com visibilidade se aproxima de uma vítima vulnerável, oferecendo recursos, atenção e acolhimento.
Mas existe o ângulo menos confortável.
A substituição gradual do Estado — e de suas responsabilidades — por figuras públicas que ocupam um vácuo institucional.
A sociedade se acostuma à ideia de que casos extremos precisam de padrinhos famosos.
E que, sem eles, o drama corre o risco de se perder na sobrecarga do cotidiano.
Ainda assim, seria injusto reduzir tudo a personalismo.
Há algo genuíno na força de mobilização que surge quando a dor é vista, nomeada e amplificada.
A internet, nesse caso, funciona como uma praça pública hiperconectada.
Uma praça onde a compaixão pode ser instantânea — e eficaz.
O movimento gerado em torno de Tainara não a salva apenas fisicamente.
Ele a insere em uma rede de proteção simbólica: a vítima deixa de ser número, torna-se rosto, história, urgência.
E talvez essa seja a grande função da influência, quando usada com responsabilidade.
Criar brechas de humanidade em meio ao ruído.
A pergunta final, porém, permanece:
quantas Tainaras dependerão de viralização para que a sociedade, enfim, lhes dê atenção?
E, sobretudo, quando aprenderemos a reagir com a mesma intensidade mesmo sem um holofote chamando?

