A tragédia familiar que chocou a cidade de Itumbiara, no interior de Goiás, desdobrou-se nesta semana em uma ofensiva jurídica contra as maiores potências da comunicação brasileira.
A Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) ajuizou uma ação civil pública contra a Globo, CNN Brasil, Record e SBT, pleiteando uma indenização de R$ 1 milhão por danos morais coletivos.
A instituição acusa as emissoras de incitarem um linchamento virtual contra Sarah Araújo, mãe das duas crianças mortas pelo ex-marido, Thales Machado, em um crime de duplo homicídio seguido de suicídio ocorrido há menos de duas semanas.
O cerne da acusação reside na exploração midiática de um vídeo que mostra Sarah beijando outro homem. Segundo a Defensoria, as imagens foram obtidas de forma espúria por um detetive particular contratado por Machado para monitorar a ex-mulher.
A ação sustenta que, ao exibirem o conteúdo sob o rótulo de uma suposta traição, as emissoras distorceram a realidade — uma vez que Sarah já estava solteira na época do crime — e alimentaram uma narrativa de culpabilização da vítima que transbordou para o mundo físico.
O impacto foi tão severo que Sarah foi hostilizada durante o sepultamento dos próprios filhos, necessitando de escolta policial para garantir sua integridade.
A Defensoria Pública argumenta que o papel da imprensa, ao associar a conduta pessoal da mãe à motivação bárbara do assassino, acabou por validar o discurso do agressor e transferir para Sarah a responsabilidade pelo destino trágico das crianças.
Por isso, o pedido judicial inclui a exclusão imediata de todas as reportagens e postagens que mencionem a suposta infidelidade no prazo de 24 horas, sob pena de multa diária de R$ 10 mil.
Além da indenização financeira, a instituição exige que as redes de televisão publiquem notas de retratação oficiais em seus principais veículos e redes sociais.
Até o momento, o cenário entre as emissoras é de cautela e silêncio parcial. A CNN Brasil afirmou não ter sido notificada e negou a publicação das imagens em questão, enquanto a Globo informou que ainda aguarda o comunicado oficial da justiça. Record e SBT, procuradas desde o início da semana, não se manifestaram sobre o caso.
A ação agora coloca o Poder Judiciário diante de um debate complexo sobre os limites entre a liberdade de informar e o direito à privacidade e dignidade de vítimas de crimes violentos, especialmente em casos onde a espetacularização da vida privada pode gerar danos irreparáveis.

