Uma operação desencadeada com ostensividade — e que já deu origem a números trágicos — nos deixa perguntas fundamentais sobre o uso da força e o preço da ordem.
Na manhã de 28 de outubro de 2025, cerca de 2.500 agentes de segurança pública do Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro entraram nos complexos da Penha e do Alemão, zonas densas e historicamente conflituosas da zona norte do Rio de Janeiro, com mandados para prender líderes da facção Comando Vermelho.
O saldo divulgado até agora: entre mais de 60 e mais de 130 mortos — ainda com divergências entre autoridades e defensorias.
É a operação policial mais letal já registrada no estado.
O governo estadual afirmava que a ação tinha como objetivo “golpear a expansão da facção”, recuperar territórios, apreender armas e drogas.
Mas a escala da violência — combates em favelas com helicópteros, blindados, barricadas — faz emergir outro tipo de questão: até que ponto a estratégia de “choque e letalidade” se sobrepõe aos direitos civis, ao devido processo e à proteção de não-combatentes?
— As autoridades afirmam que a maioria dos mortos eram criminosos que “resistiram à abordagem”.
— A defensoria pública local contabiliza 132 mortes e fala sobre vítimas civis.
— Moradores relatam cenários de terror: disparos contínuos, pessoas impedidas de sair de casa, corpos sendo dispostos ao relento para identificação.
— Instituições de direitos humanos chilenas e internacionais pedem investigação.
Porque o que está em jogo não é apenas a segurança pública, mas a legitimação do uso da força pelo Estado. Quando a resposta estatal assume proporções potencialmente desproporcionais, ela contribui para:
aprofundar o estigma sobre favelas e seus moradores;
promover uma dinâmica de guerra urbana permanente, onde zonas de exceção viram regra;
diluir a distinção entre combate ao crime e criminalização de comunidades.
Para o cidadão que paga imposto e vive sob o manto constitucional, a questão não se resume a “bom que prenderam gente ruim”. O desafio é outro: qual padrão de atuação aceitamos para o Estado-força?
Se as operações excepcionais ganham força, a linha que limita o Estado de direito corre risco de se romper — e a “exceção” vira norma em áreas já vulneráveis. Em outras palavras: quem garante que os mortos não serão apenas “colaterais” de uma estratégia que se torna permanente?
Este episódio no Alemão e na Penha marca um ponto de inflexão.
Se for tratado como vitória incontestável, corre-se o risco de normalizar letalidade em vez de promover justiça.
Se for investigado com rigor, poderá sinalizar que a segurança real só vem quando se alia eficácia à transparência, direitos individuais e participação comunitária.
Resta a pergunta que não nos larga: até onde aceitaremos que “ordem pública” justifique mortes em massa — e qual cenário estaremos construindo para amanhã?

