Você já se perguntou como o cotidiano de nossa política pessoal se mistura com diagnósticos clínicos em plena luz pública — e o que isso revela sobre expectativas, responsabilização e informação? O laudo médico do ex-presidente Jair Bolsonaro apontou carcinoma de células escamosas “in situ” em duas das oito lesões de pele removidas.
O diagnóstico, segundo o médico Cláudio Birolini, é em estágio precoce e não requer tratamento adicional além de acompanhamento periódico. Mas esse tipo de anúncio, quando colocado sob os refletores da vida pública, transcende o âmbito da saúde individual e se transforma em narrativa política.
“In situ” quer dizer que o tumor está contido, sem invadir camadas mais profundas da pele ou propagar-se. Em linguagem médica, é uma lesão no ponto de origem. Trata-se de uma fase relativamente benigna, mas longe de irrelevante.
Esse tipo de carcinoma, se ignorado, pode evoluir para quadros mais graves; se tratado de forma precoce, tem altíssimas chances de cura. O que em um paciente anônimo seria um detalhe clínico rotineiro, em uma figura pública vira metáfora e campo de disputa simbólica.
Quando autoridades divulgam laudos médicos, produzem efeitos que vão além da esfera privada. Há a expectativa de transparência, a curiosidade da opinião pública e o risco de se transformar uma informação clínica em espetáculo.
Ao mesmo tempo, esse tipo de anúncio pode gerar discussões sobre prevenção, hábitos de saúde e políticas públicas. Afinal, o câncer de pele está entre os mais comuns no Brasil, país de sol intenso e cultura limitada de proteção solar.
A frase “já foi removido, não precisa de tratamento adicional” traz um paradoxo. De um lado, oferece alívio imediato, tanto ao paciente quanto aos apoiadores que acompanham seu estado de saúde. De outro, pode gerar uma sensação de encerramento precipitado, como se não houvesse motivo para vigilância contínua.
O médico ressalta que, devido à pele castigada pelo sol e ao histórico de lesões, Bolsonaro precisará de acompanhamento constante. Aqui, o risco não é apenas biológico, mas também comunicacional: tranquilizar demais pode induzir ao erro de minimizar a importância da prevenção.
Há ainda uma camada raramente discutida. Enquanto o ex-presidente tem acesso rápido a diagnósticos, cirurgias e especialistas, o cidadão comum enfrenta filas, demora em consultas e muitas vezes só descobre a doença em estágios avançados. Essa desigualdade de acesso é o verdadeiro “in situ” da saúde brasileira: a lesão está lá, visível, mas permanece ignorada até que seja tarde.
Outra questão é como a política instrumentaliza episódios de saúde. Líderes frequentemente transformam diagnósticos em símbolos: da própria resiliência, da fragilidade humana ou até de uma narrativa de martírio. Resta saber se Bolsonaro utilizará o episódio como demonstração de força — “venci mais uma batalha” — ou se a oposição explorará a vulnerabilidade como sinal de desgaste. Em ambos os casos, a doença perde sua dimensão estritamente médica e se torna recurso discursivo.
E, no entanto, há um ensinamento prático que atravessa qualquer trincheira ideológica: diagnósticos precoces salvam vidas. A prevenção é sempre mais barata, mais simples e mais eficaz do que a remediação tardia.
No caso do câncer de pele, campanhas de conscientização, distribuição de protetores solares em larga escala e incentivo a consultas periódicas deveriam estar no centro das políticas de saúde pública.
O episódio também mostra como comunicação em saúde é um ato de responsabilidade social. O que se diz e o que se omite pode influenciar comportamentos coletivos. Reduzir um carcinoma “in situ” a “algo que já passou” pode ser reconfortante, mas também pode dar a impressão errada de que exames e cuidados são dispensáveis.
Ao contrário, a lição deveria ser: se até um ex-presidente precisa de acompanhamento, qualquer cidadão deveria ter o mesmo direito — e a mesma urgência — de acesso a cuidados dermatológicos.
O caso, no fundo, é um espelho da própria democracia. “Já removido” não significa “já resolvido”. A pele guarda marcas do sol, mas também das omissões. Assim como a política brasileira, que acumula cicatrizes expostas e feridas mal cicatrizadas, a saúde demanda vigilância permanente.
O câncer de pele de Bolsonaro talvez não exija tratamento imediato, mas obriga a sociedade a refletir sobre prioridades: o quanto estamos dispostos a investir em prevenção antes que a próxima lesão apareça, seja no corpo, seja no corpo político.
Se algo deve permanecer com o leitor, é a consciência de que diagnósticos são apenas pontos de partida. A narrativa de cura imediata pode confortar, mas é ilusória se não vier acompanhada de políticas consistentes.
No limite, o carcinoma “in situ” é também uma metáfora do Brasil: problemas identificados cedo, removidos parcialmente, mas cuja vigilância constante será determinante para definir se cicatrizamos ou se deixamos a doença avançar.

