O que vale mais: financiar hospitais, escolas e programas sociais ou bancar campanhas eleitorais? Essa é a pergunta incômoda que o Congresso preferiria não ouvir — mas que ecoa após a aprovação simbólica da Comissão Mista de Orçamento (CMO).
Na terça-feira (30), deputados e senadores deram o primeiro passo para garantir que, em 2026, o Fundo Eleitoral tenha um montante inicial de R$ 4,9 bilhões.
O valor não é aleatório. Ele repete o recorde de 2022 e supera em quase cinco vezes a proposta do governo Lula, que previa até R$ 1 bilhão.
Na prática, a instrução obriga o relator Isnaldo Bulhões (MDB-AL) a trabalhar já com esse número. Qualquer tentativa de reduzi-lo terá de enfrentar uma muralha de interesses partidários.
O detalhe mais revelador, porém, está na origem do dinheiro: cortes em outras áreas do Orçamento ainda não especificadas.
Em outras palavras, haverá perdedores. A conta virá da saúde? Da educação? Da infraestrutura? A resposta, ao que tudo indica, é irrelevante para quem votou a favor.
Os defensores do Fundão alegam que ele é a forma mais “limpa” de financiar campanhas, reduzindo a dependência de grandes empresas.
Mas esse argumento esconde um paradoxo: para livrar os políticos da influência do poder econômico, transfere-se o peso diretamente ao bolso do contribuinte.
E não se trata de pouco dinheiro. R$ 4,9 bilhões equivalem, por exemplo, ao orçamento anual de cidades inteiras ou ao custeio de programas sociais que atendem milhões de brasileiros.
Curiosamente, a decisão ocorre em um contexto de ajuste fiscal e de cobrança incessante por cortes de gastos. Mas o cinturão da austeridade nunca aperta onde mais dói: no financiamento da própria classe política.
A votação simbólica, sem registro individual de votos, também revela uma estratégia: evitar que os eleitores identifiquem com clareza quem bancou a ampliação.
O episódio ilustra um padrão mais amplo: em momentos cruciais, o sistema político funciona como uma corporação preocupada com sua sobrevivência, e não como um mediador das necessidades sociais.
O Fundão bilionário não é apenas um número. Ele sinaliza quais são as verdadeiras prioridades de um Congresso que opera em permanente estado de autopreservação.
A cada ciclo, a lógica se repete: mais recursos públicos para campanhas, menos transparência sobre o custo real dessa escolha.
Enquanto isso, a sociedade permanece no papel de financiadora compulsória de um espetáculo eleitoral que, paradoxalmente, lhe oferece pouca representatividade efetiva.
A pergunta que resta é: até quando o eleitor aceitará essa equação sem se insurgir contra ela?
Se o Orçamento é o espelho das prioridades nacionais, o reflexo que agora se vê é claro: a democracia brasileira é cara, e quem paga a fatura não é quem disputa as urnas.
O fundo ainda precisa passar pelo crivo do plenário da Câmara e do Senado, mas dificilmente será revertido.
Assim, a cifra de R$ 4,9 bilhões não é apenas uma reserva contábil: é a mais recente prova de que, no Brasil, a política sempre encontra meios de financiar a si mesma, mesmo que o preço seja sacrificar o futuro coletivo.

