O anúncio do Governador Cláudio Castro sobre o agendamento de dez novas operações policiais semelhantes àquela que resultou em 121 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, não é um plano de segurança; é a consolidação de uma doutrina de confronto para o Rio de Janeiro.
Ao fazer o anúncio logo após a operação mais letal da história, Castro está reafirmando que o alto custo humano é aceito como parte da estratégia. A mensagem é: o Estado não vai recuar diante da crítica ou da tragédia.
A Doutrina do Confronto de Alto Custo
A decisão de agendar mais dez operações desse porte é uma aposta de alto risco. O governador está trocando o modelo de segurança preventiva e de inteligência de longo prazo por uma política de choque e de espetáculo da força.
Ele assume que a única forma de restaurar o controle é através da interrupção violenta da rotina do tráfico, aceitando a alta letalidade como um custo operacional.
A Gestão da Crise e o Foco Geográfico
O plano de focar em Jacarepaguá para a retomada de territórios e operações diárias na Zona Sudoeste e Baixada Fluminense mostra que a estratégia é reagir ao avanço das facções em áreas de classe média e nas vias expressas.
- Jacarepaguá (Zona Sudeste): A retomada aqui é crucial, pois mira em uma região que é rota de transporte e que viu um crescimento da influência da milícia e do tráfico. A ação visa proteger o “asfalto” e as áreas de expansão imobiliária.
- Retirada de Barricadas: O foco na remoção de barricadas na próxima semana é um ato de guerra simbólica. As barricadas são a materialização do poder territorial do tráfico; removê-las é a afirmação da soberania do Estado nas entradas das comunidades.
A Necessidade de Sustentabilidade
O grande ponto de interrogação não é a capacidade de realizar dez operações, mas a capacidade de manter o território após a saída da tropa.
A história do Rio prova que operações de choque geram um “efeito recorte”: a violência diminui momentaneamente, mas o tráfico se reorganiza e retoma o território assim que o efetivo policial se retira.
O anúncio de Castro deve ser visto como uma declaração de intenções políticas: ele está sinalizando para o eleitorado que, apesar da pressão, sua gestão manterá a agenda de segurança de mão de ferro.
A verdadeira questão é se, junto com as dez operações, haverá um plano de ocupação social, de investimento em inteligência para desmantelar a corrupção e de reforma penitenciária, que são as únicas soluções de longo prazo.
Sem isso, o Rio estará condenado a um ciclo vicioso de choques militares que ceifam vidas, mas nunca resolvem a raiz do problema.

