Quem imaginava que em plena Europa de instabilidade política o “meio” poderia emergir como principal via de escape? Pois é exatamente o que aconteceu na eleição geral de 2025 na Holanda.
A D66 — partido liberal-centrista liderado por Rob Jetten — alcançou o que poucos previam: ultrapassar ou equiparar o populismo da Party for Freedom (PVV) de Geert Wilders, que reacendera o debate europeu sobre imigração e identidade.
Mas o que há por trás desse “salto centrista”? E por que ele importa mais do que os números sugerem? Vamos por partes.
A primeira pista está no desgaste: o PVV, que havia conquistado um avanço em 2023, viu sua base vacilar. Seus aliados se desfizeram, a coalizão ruiu — e o eleitor parece ter dado o recado: radicalismo demais gera instabilidade demais.
Em segundo lugar: a D66 surfou uma onda de “otimismo pragmático”. Em vez de prometer o céu ou demonizar o outro, propôs políticas centradas em habitação, saúde e energia, sem deixar de lado uma bandeira europeísta. Isso virou diferencial.
Terceiro: os eleitores parecem cansados do “tudo ou nada”. Em um sistema multipartidário como o holandês (150 cadeiras, coalizões inevitáveis), prevalece quem consegue oferecer gestão em vez de gritos.
Contudo, é aqui que o “e daí?” aparece: vencer a eleição não é sinônimo de governar sozinho. A D66 ficou com cerca de 26 cadeiras — empatando ou quase empatando com a PVV — e terá que formar uma coalizão complexa para governar.
Isso traz uma primeira implicação humana e prática: a “vitória” do centro não elimina a fragmentação política — ela a expõe de novo. Fazer negócios entre partidos, conciliar agendas díspares, acomodar o confronto entre quem quer mais mercado e quem quer mais rede de proteção. O eleitor holandês não trocou caos por unanimidade, trocou caos por negociação.
Na outra ponta: para países como o Brasil, a leitura é intrigante. Em um momento global de polarização, ver o centro valendo algo — não como neutro resignado, mas como agente ativo — abre uma janela de reflexão. Será que nosso “meio” está dormindo ou pode emergir?
Há, no entanto, armadilhas. A D66, ao adotar tom de “gestão sensata”, pode cair na armadilha da mesmice ou da insatisfação prolongada se as expectativas não forem atendidas. O eleitor de hoje quer mais do que “menos radicalismo” — ele quer solução.
Finalmente, concluo com a projeção que poucos ousam fazer: se a D66 conseguir governar — mostrar que o centrismo não é apenas pacto de conveniência, mas mecanismo de entrega — ela abrirá caminho para uma era em que “moderação” volte a se valorizar como força, não como fraqueza. Se falhar, servirá de metáfora amarga para a ilusão do “meio seguro”.
E então: estamos preparados para ver o centro virar protagonista — ou ele continuará apenas nos bastidores?

