Nos últimos 11 anos, um dos maiores desafios da saúde pública brasileira ganhou destaque e alarmou especialistas: o aumento expressivo do número de casos de câncer entre jovens e adultos de até 50 anos atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Estatísticas oficiais mostram que os diagnósticos nesta faixa etária saltaram de cerca de 45,5 mil em 2013 para quase 175 mil em 2024 — um crescimento de 284%. A magnitude desse avanço se torna ainda mais preocupante diante da projeção de novos casos no país e das lacunas nos dados do sistema suplementar.
De acordo com os registros disponibilizados pelo DataSUS e pelo Painel Oncologia BR, o perfil dos pacientes está se transformando rapidamente. O câncer, historicamente associado ao envelhecimento, passou a surgir em pacientes jovens e ativos, mudando também o padrão epidemiológico da doença no Brasil. Por trás dessa mudança, estão fatores ambientais, comportamentais, genéticos e lacunas nos programas de prevenção e rastreamento.
Um elemento preocupante é que os tipos de câncer que mais cresceram entre adultos jovens não são os mais comuns no passado recente. Entre os exemplos mais significativos estão os tumores de mama, colorretal e fígado, todos com tendência de crescimento contínuo. O câncer de mama lidera em número de casos, com mais de 22 mil diagnósticos anuais em mulheres de até 50 anos — um aumento de cerca de 45% entre 2013 e 2024.
O câncer colorretal, por sua vez, integra uma das listas mais alarmantes desse fenômeno. O número de casos passou de 1.947 em 2013 para mais de 5 mil em 2024, aumento de 160% em uma década. Especialistas enfatizam que esse crescimento está intimamente ligado a fatores de estilo de vida, como alimentação rica em produtos ultraprocessados, sedentarismo, sobrepeso e obesidade.
A lacuna nos dados da saúde suplementar acrescenta uma camada de complexidade ao panorama. Cerca de 25% da população brasileira é atendida apenas por planos privados, muitos dos quais não registram casos de câncer desde a interrupção obrigatória do uso da Classificação Internacional de Doenças nas bases das operadoras, em 2010. Por isso, os números do SUS podem refletir apenas parte da realidade total — e a estimativa real pode ser ainda maior.
Em paralelo, a população atendida pelo SUS representa cerca de três quartos dos casos de câncer registrados. Isso significa que grande parte da carga da doença continua concentrada na rede pública, o que implica desafios operacionais e financeiros substanciais, além da urgência de repensar estratégias de prevenção e detecção precoce.

