Quem imaginaria que uma sessão de ajuste de coluna poderia terminar em uma corrida desesperada contra a morte? Foi o que aconteceu com uma jovem nos Estados Unidos, que saiu de uma clínica de quiropraxia com quatro artérias rompidas, um acidente vascular cerebral e sequelas permanentes.
O caso parece exceção, mas expõe uma contradição: terapias consideradas alternativas, muitas vezes vistas como inofensivas, carregam riscos pouco discutidos. E, quando esses riscos se concretizam, o impacto humano é irreversível.
A manipulação cervical é defendida por quiropraxistas como ferramenta eficaz contra dores crônicas. No entanto, o pescoço abriga artérias delicadas que irrigam o cérebro, e um movimento brusco pode ser suficiente para causar rupturas fatais.
O episódio ganhou repercussão porque desmonta a ideia de que a quiropraxia é sempre segura. Embora os defensores da prática apontem que complicações são raras, a raridade não apaga a gravidade quando o resultado é incapacitante.
Médicos alertam há décadas para a vulnerabilidade das artérias vertebrais durante ajustes cervicais. Mas esse alerta raramente chega ao público, que tende a associar a quiropraxia a bem-estar e alívio imediato, não a risco de vida.
O drama da jovem revela um abismo de informação. Muitos pacientes não são informados sobre possíveis complicações antes da sessão, e o consentimento, quando existe, é mais formalidade do que diálogo transparente.
Há ainda um ponto ético: até que ponto profissionais que atuam em áreas não reguladas de forma homogênea podem ser responsabilizados por danos tão graves? A linha entre acidente e negligência é turva.
O caso também levanta questões sobre regulação da prática nos EUA. A quiropraxia é reconhecida em muitos estados, mas com padrões de formação e fiscalização muito distintos, o que abre margem para lacunas perigosas.
Além do drama jurídico, existe a dimensão humana. Uma jovem que buscava alívio para dores saiu com uma vida radicalmente transformada, dependente de cuidados e carregando sequelas neurológicas que poderiam ter sido evitadas.
Esse choque de realidades revela uma tensão maior: a busca crescente por alternativas ao modelo biomédico tradicional convive com uma subestimação dos riscos dessas práticas. O desejo por soluções rápidas às vezes custa caro demais.
É impossível não comparar com procedimentos médicos de alto risco, nos quais o paciente é minuciosamente informado sobre cada possibilidade adversa. Na quiropraxia, muitas vezes, essa transparência inexiste.
O caso também se insere em um debate cultural: até que ponto a popularidade de terapias alternativas resulta de falhas do sistema de saúde convencional em lidar com dores crônicas e ansiedade?
Há, portanto, uma responsabilidade compartilhada. O sistema médico muitas vezes falha em oferecer acolhimento e soluções eficazes, empurrando pacientes para caminhos menos seguros.
Ainda assim, não se pode normalizar tragédias como a dessa jovem. Elas expõem a necessidade urgente de revisão nos protocolos, de fiscalização mais rígida e, sobretudo, de informação clara ao paciente.
O argumento de que complicações são raras soa insuficiente quando o risco é a morte ou incapacidade permanente. Estatísticas não consolam famílias devastadas.
Analogicamente, é como dizer que voar é seguro porque a queda de aviões é rara. Verdade. Mas quando ocorre, o desastre é absoluto.
O futuro da quiropraxia dependerá de como esses casos serão tratados. Ignorá-los apenas amplia a vulnerabilidade de outros pacientes. Reconhecê-los pode abrir caminho para práticas mais responsáveis.
O episódio nos lembra de que a saúde não se resume à busca pelo alívio imediato, mas também envolve ponderar riscos invisíveis. E muitas vezes, esses riscos ficam ocultos sob a promessa de bem-estar rápido.
A tragédia da jovem americana não é apenas uma estatística isolada. É um alerta sobre como escolhas aparentemente banais podem redefinir vidas inteiras — e sobre a urgência de discutir com mais seriedade o que realmente significa segurança em saúde.

