A afirmação de Carlos Bolsonaro (PL-RJ) de que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, estaria “devastado psicologicamente” após a prisão preventiva por violar a tornozeleira eletrônica, é uma peça-chave na estratégia de comunicação da defesa. Longe de ser apenas um desabafo familiar, a declaração busca humanizar o ex-presidente, neutralizar a imagem de desafio institucional e mobilizar a base de apoio pela via da piedade e vitimização.
A Subversão da Narrativa de Força
Jair Bolsonaro construiu sua imagem política em torno da força, da rigidez e da resistência. A declaração de Carlos, um dos principais estrategistas digitais do clã, inverte essa narrativa ao apresentar o ex-presidente como uma vítima vulnerável sob pressão psicológica intensa.
O ceticismo nos obriga a analisar a intenção por trás do vazamento desse estado emocional:
Humanização para a Base: Tentar quebrar a imagem de “criminosa” atribuída pela prisão, trocando-a pela de “mártir sofredor” do sistema.
Pressão Indireta ao Judiciário: Mostrar ao Judiciário, e à opinião pública, o custo psicológico da medida cautelar, sugerindo que a detenção é excessivamente cruel ou desnecessária.
Essa estratégia difere da “não-resistência” adotada no momento da prisão; agora, o foco é o dano invisível e emocional.
O Foco na Vítima, Desfocando a Violação
A ênfase na “devasteza” também serve para desviar o foco dos motivos legais da prisão, que são:
Violação da Tornozeleira: Desrespeito direto a uma ordem judicial.
Risco à Ordem Pública: O potencial de mobilização descontrolada.
Ao falar do sofrimento psicológico, o debate é transferido do mérito legal para o mérito humanitário. A família tenta criar uma cortina de fumaça emocional sobre a reiteração da conduta de desobediência que justificou a medida mais extrema do STF.
A Voz do Filho e a Legitimidade
A escolha de Carlos para veicular a informação é estratégica. Como filho, ele confere legitimidade e intimidade ao relato. Suas palavras têm um peso emocional maior do que as de advogados ou porta-vozes, pois parecem vir de um local de dor e preocupação familiar genuína.
A declaração é, em essência, um apelo público por clemência, direcionado tanto aos seguidores, que devem manter as orações e o apoio (como já pediu Michelle Bolsonaro), quanto aos ministros do STF que analisarão os próximos recursos.
O “e daí” dessa revelação é o impacto na opinião pública. O objetivo é gerar uma onda de solidariedade que pressione politicamente a Justiça por uma revogação da prisão ou, no mínimo, por um abrandamento das condições. No xadrez político e judicial, o estado psicológico do réu se torna mais um elemento na complexa defesa de um ex-presidente.
O Cenário da Prisão Cautelar
A prisão preventiva, por sua natureza, tem um efeito psicológico severo. A decisão de mantê-lo na custódia judicial após a audiência de custódia demonstrou que o Judiciário está priorizando a segurança do processo e a autoridade institucional acima do conforto pessoal.
A violação da tornozeleira eletrônica transformou a fragilidade das cautelares em prova concreta da necessidade da prisão.
A Reação da Base
A declaração de Carlos Bolsonaro visa reacender o engajamento emocional da base bolsonarista, que pode ter se sentido desmotivada pela prisão sem resistência do ex-presidente. Ao ser apresentado como um sofredor, o ex-presidente cumpre o papel de mártir da “perseguição do sistema”, uma narrativa que sempre alimentou sua popularidade.
A Diferença entre Devastação e Punição
É crucial diferenciar o sofrimento humano da consequência legal. O fato de o ex-presidente estar “devastado” é uma realidade humana, mas não invalida os motivos legais que levaram à sua prisão preventiva. O sistema judicial precisa garantir que a emoção não anule a lei.
O Alerta Judicial
Se o estado psicológico do réu for confirmado como grave, isso pode, em teoria, ser usado como argumento pela defesa para solicitar uma prisão domiciliar ou uma alternativa humanitária, mas apenas se houver risco real à vida ou à saúde que não possa ser tratado na Sala de Estado da PF.
O Uso da Mídia Social
A escolha do filho para transmitir a informação reforça o papel de bunker digital do clã. A informação é veiculada através de um canal de confiança, garantindo a fidelidade da mensagem para a audiência alvo.
O Contraste Institucional
O depoimento contrasta com a frieza institucional da PF, que buscou evitar a exposição e manteve o protocolo de autoridade. A defesa opta pela exposição emocional.
A Peça do Quebra-Cabeça
A declaração de Carlos é mais uma peça no complexo quebra-cabeça da defesa, que busca construir uma narrativa onde a prisão é vista como abuso e não como o desfecho necessário após a violação de medidas cautelares.
O Próximo Passo
O próximo passo da defesa, após a tentativa de mobilização emocional, será o recurso formal buscando a revogação da prisão preventiva no STF.

