Por que um banco público decidiu pagar milhões para atualizar dois livros já publicados?
A pergunta não é retórica; é ponto de partida para entender uma decisão que mistura direitos autorais, gestão cultural e risco reputacional.
O contrato firmado com o escritor e historiador Eduardo Bueno prevê R$ 3,27 milhões para revisar e ampliar obras sobre a trajetória da instituição. O valor chama atenção pelo montante e pelo momento político.
A justificativa oficial usada pela Caixa foi a inexigibilidade de licitação, amparada na Lei de Direitos Autorais: apenas o detentor do direito poderia alterar a obra. Essa linha jurídica é simples, mas insuficiente para dissolver dúvidas.
Inexigibilidade não é sinônimo de blindagem: cabe analisar proporcionalidade do preço, escopo do trabalho e contrapartidas previstas no contrato. A transparência exige que esses elementos sejam tornados claros e verificáveis.
Há repercussão administrativa: parlamentares questionaram a contratação e há registro de acionamento do Tribunal de Contas da União para análise da legalidade e da economicidade do gasto. O sinal de alerta se acendeu.
Do ponto de vista editorial, atualizar um livro não é tarefa triviale envolve pesquisa, revisão, edição e, no caso declarado, versões digitais e em inglês, além de formatos multimídia previstos no projeto contratual. Isso eleva o custo, mas não justifica automaticamente o montante pago.
A dimensão simbólica também pesa. Um banco público que decide narrar sua própria história assume poder de moldar memória institucional; isso suscita debate sobre independência e narrativa oficial. Quem conta a história tem influência sobre como ela será lida.
O contexto político amplifica a sensibilidade. Em tempos de polarização, cada gasto público vira alvo de interpretação: investimento cultural ou uso de verba pública com pouca justificativa técnica? A resposta depende de documentação e entrega efetiva.
Do lado do autor, Eduardo Bueno tem currículo e reconhecimento; isso não o exime de explicações sobre cronograma, entregas e cláusulas de fiscalização do contrato. A reputação profissional não substitui prestação de contas.
A reação nas redes e na imprensa tende a simplificar: caro ou escândalo. Mas a análise pública séria precisa distinguir preço, escopo, procedimentalidade e resultados entregues — e só o relatório técnico poderá fazê-lo.
O TCU foi acionado explicitamente por representação política, que pede verificação de legalidade e eventual irregularidade. Esse passo é natural em democracias, onde órgãos de controle atuam como freio a excessos administrativos.
Se o controle identificar excessos, as consequências podem ir de recomendações a sanções administrativas; se não, restará à Caixa a tarefa de demonstrar eficiência na execução do contrato. A colaboração documental será decisiva.
Há um risco reputacional imediato: custos contestados corroem confiança interna e externa, e para um banco que lida com recursos e política social, reputação é ativo estratégico. Gastos culturais cobram retorno simbólico e prático.
A discussão deveria deslocar-se do óbvio (alto valor = má gestão) para questões técnicas: houve pesquisa de mercado? Como foram calculados custos de produção editorial e de multimídia? Quais métricas serão usadas para aferir entrega?
Outra dimensão a observar é a precedência: contratos culturais onerosos podem abrir caminho para práticas repetitivas se não houver lição pública sobre transparência e controle. A instituição precisa criar gatilhos de prestação de contas.
A sociedade merece saber se o contrato oferece produtos públicos (livros digitais, acervo acessível, websérie) com valor social e educacional ou se trata de gasto fechado em circuito restrito. A diferença é substantiva.
No fim, a pergunta inicial retorna transformada: não é apenas por que pagaram R$ 3,27 milhões, mas que tipo de narrativa e de bens públicos esse dinheiro produzirá — e se isso justifica a confiança depositada num gestor público.
Se os relatórios e entregas vierem públicos, com prazos e métricas, a controvérsia tende a amainar; se ficarem nebulosos, haverá razão para auditoria e reação política persistente. A diferença está na transparência.
Fica, por fim, uma reflexão: investir em memória institucional é legítimo, mas fazê-lo às claras é obrigação. Sem isso, mesmo boas intenções resultam em ruído institucional e em desgaste que nenhuma edição revisada poderá apagar.

