Butantan desenvolver pomada capaz de curar feridas sem deixar a queloide na pele

O cenário da biotecnologia brasileira vive um momento de renovado otimismo com os avanços de uma pesquisa que une a biodiversidade do semiárido à alta tecnologia farmacêutica. Anunciado originalmente em 2023, o projeto de uma pomada com alto poder cicatrizante, desenvolvida por pesquisadoras do Instituto Butantan em parceria com a startup BiotechnoScience Farmacêutica, entrou em uma fase decisiva em 2026. O diferencial do produto reside em seu princípio ativo: uma substância extraída de um fungo isolado exclusivamente na Caatinga brasileira, bioma que tem se revelado um tesouro para a prospecção de novas moléculas.

A inovação proposta pelo Laboratório de Desenvolvimento e Inovação do Butantan foca em resolver um dos maiores problemas da dermatologia: a cicatrização inestética. Diferente das soluções convencionais, os testes iniciais demonstraram que o uso tópico desta nova formulação permite a regeneração do tecido lesionado sem a indução de queloides ou cicatrizes hipertróficas. O composto atua de forma inteligente nas camadas da derme, garantindo que o fechamento de feridas ocorra de maneira funcional e esteticamente harmoniosa, preservando a elasticidade natural da pele.

A pesquisadora Tainah Colombo Gomes, fundadora e CEO da BiotechnoScience Farmacêutica, detalhou que a pomada não apenas acelera o fechamento da ferida, mas atua como um modulador biológico. O princípio ativo estimula o processo natural de cicatrização ao otimizar a produção de colágeno na área afetada. Essa estimulação controlada é o que proporciona uma recuperação mais uniforme, evitando o acúmulo desordenado de fibras de colágeno que, em condições normais, resultaria em cicatrizes endurecidas ou salientes, conhecidas como queloides.

Os estudos pré-clínicos realizados até o momento indicaram que a formulação é extremamente segura para uso tópico, não apresentando sinais de toxicidade ou irritabilidade dérmica. Nos testes comparativos, o desempenho do novo fármaco foi superior ao das pomadas cicatrizantes mais vendidas no mercado atual. A superioridade foi notada especialmente na densidade e na organização das novas fibras de colágeno, sugerindo que o produto brasileiro pode se tornar o novo padrão ouro para o tratamento de feridas cirúrgicas, queimaduras e lesões crônicas.

O “e daí?” dessa descoberta transcende o ganho estético. Para pacientes que sofrem com feridas de difícil cicatrização, como diabéticos ou pessoas com problemas circulatórios, uma pomada que organiza a regeneração tecidual pode significar a prevenção de infecções secundárias e até de amputações. Além disso, a produção a partir de um fungo da Caatinga reforça a importância da preservação ambiental como motor da soberania farmacêutica nacional, provando que o interior do Brasil guarda soluções para problemas de saúde globais.

A parceria entre o Instituto Butantan, uma instituição pública centenária, e a BiotechnoScience, uma startup de base tecnológica, exemplifica o modelo de “tripla hélice” (academia, governo e empresa) necessário para transformar ciência básica em produto de prateleira. Este modelo permite que o conhecimento gerado dentro da universidade atravesse o chamado “vale da morte” da inovação e chegue ao consumidor final, gerando royalties para a pesquisa pública e fortalecendo a indústria nacional de fármacos.

Embora os resultados sejam promissores, a jornada regulatória ainda exige cautela. A próxima etapa envolve os testes clínicos em humanos, fundamentais para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorize a comercialização. A expectativa das pesquisadoras é que o rigor científico aplicado nas fases pré-clínicas facilite o caminho regulatório, dado que o mecanismo de ação da molécula fúngica já está bem mapeado e os índices de segurança são considerados robustos pela equipe de inovação.

O impacto econômico também é um fator relevante no horizonte de 2026. O mercado global de tratamentos avançados para feridas movimenta bilhões de dólares anualmente, e o Brasil, ao deter a patente de uma molécula original e eficaz, pode deixar de ser apenas um importador de insumos caros para se tornar um exportador de tecnologia de ponta. A biodiversidade da Caatinga, tantas vezes negligenciada, mostra que a resiliência das espécies desse bioma se traduz em moléculas capazes de ensinar a pele humana a se curar com perfeição.

A comunidade médica aguarda com expectativa o início dos testes em larga escala. Cirurgiões plásticos e dermatologistas veem na pomada uma ferramenta poderosa para pós-operatórios, reduzindo a dependência de tratamentos complementares caros, como laserterapia ou infiltrações de corticoides para tratar cicatrizes ruins. A simplicidade do uso tópico, aliada à alta tecnologia molecular, coloca o tratamento ao alcance de uma parcela maior da população, desde que a produção ganhe escala industrial.

A conscientização sobre o valor dos recursos genéticos nacionais também ganha força com este anúncio. O uso de fungos para a produção de fármacos é uma área em expansão na ciência moderna (a micotecnologia), e o Brasil possui uma das maiores diversidades fúngicas do mundo, ainda pouco explorada. O projeto da pomada do Butantan serve como um farol para que outros centros de pesquisa olhem para os nossos biomas em busca de soluções sustentáveis e economicamente rentáveis.

Para as pesquisadoras envolvidas, o retorno do destaque ao projeto em 2026 é um reconhecimento da persistência científica. Desenvolver um novo medicamento leva anos de dedicação e superação de barreiras burocráticas e orçamentárias. Ver o princípio ativo da Caatinga performar melhor que produtos consolidados internacionalmente é uma vitória moral e técnica para a ciência feita em solo brasileiro, reafirmando o potencial do país como berço de inovações disruptivas.

Por fim, o sucesso desta pomada cicatrizante reforça o papel do Instituto Butantan como um hub de inovação que vai muito além das vacinas. A integração entre bioprospecção, farmacologia e empreendedorismo tecnológico desenha um futuro onde a medicina brasileira será definida pela capacidade de ler a natureza e traduzi-la em cura. O caminho da ferida ao tecido regenerado nunca pareceu tão curto e eficiente quanto através desta malha molecular tecida por fungos e mentes brasileiras.

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