A participação de brasileiros na guerra da Ucrânia tem gerado relatos perturbadores sobre as circunstâncias em que combatentes estrangeiros têm enfrentado o conflito e suas consequências. Recentemente, um homem brasileiro que atuou como combatente no Leste Europeu trouxe à tona um conjunto de afirmações que expõem aspectos pouco divulgados da guerra.
O ex-soldado, identificado apenas como Rafael — nome fictício usado a pedido dele —, relatou em entrevista que vivenciou situações extremas durante os meses em que esteve no front ucraniano. Ele descreveu um ambiente marcado pela violência cotidiana e pela morte, com efeitos duradouros sobre os combatentes estrangeiros.
Segundo o relato de Rafael, muitos corpos de militares que tombaram em combate não foram recuperados pelas unidades militares. Ele disse que, em diversos casos, restos mortais de soldados mortos acabaram sendo consumidos por animais ou deixados sem sepultamento adequado no local de batalha.
De acordo com ele, esse panorama não se deve apenas às dificuldades logísticas em meio a confrontos, mas também a práticas internas que priorizam outros objetivos estratégicos. “Os corpos não recuperados muitas vezes acabam como alimento para animais ou alvo de chacota dos russos. Muitos, os bichos comem”, relatou Rafael ao portal que publicou sua entrevista.
O ex-combatente explicou que, em diferentes zonas de combate, minas terrestres e ataques de drones representam grande parte das causas de morte entre os soldados estrangeiros. Ele citou que explosões frequentes tornam quase impossível a recuperação de corpos inteiros no terreno.
Ele ressaltou que essa situação tem impactos não apenas operacionais, mas também emocionais e legais para os familiares de brasileiros que morreram na guerra. Segundo ele, muitos parentes ainda desconhecem oficialmente o destino de seus entes devido ao status de “desaparecido em ação” que essas mortes acabam recebendo.
Rafael afirmou que esse tipo de classificação — como “missing in action” ou “lost in terrain” — pode permanecer por até três anos, período correspondente ao contrato de serviço de muitos combatentes. Durante esse intervalo, nenhuma informação detalhada é transmitida às famílias, gerando incerteza e silêncio prolongado
Ele afirmou que muitos soldados estrangeiros que perdem a vida no front não têm seus restos mortais repatriados de forma sistemática. Segundo o relato, o transporte de corpos para seus países de origem foi reduzido drasticamente, e em alguns casos anteriormente apenas as cinzas eram enviadas custeadas pela própria unidade militar.
O brasileiro também apontou um componente econômico nesse processo. Ele declarou que a falta de repatriação pode estar vinculada a custos elevados e à alocação de recursos dentro dos batalhões no terreno. De acordo com ele, isso tem gerado críticas entre alguns combatentes estrangeiros que participaram da guerra.
Ainda em seu depoimento, Rafael mencionou que imagens e mensagens circulando em grupos de redes sociais costumam ser as únicas evidências que algumas famílias recebem sobre a morte de seus entes. Ele citou que colegas sobreviventes ou fotos marcadas com símbolos de conflito acabam servindo como principal meio de confirmação.
O ex-soldado também afirmou que combatentes estrangeiros são frequentemente rotulados como “mercenários” pelas forças russas e por outros atores envolvidos no conflito. Essa rotulagem, segundo ele, influencia a forma como corpos e informações sobre mortes são tratados e divulgados por ambos os lados.
Em números apresentados por Rafael, brasileiros estariam entre as nacionalidades que mais sofreram perdas no front, atrás apenas de colombianos em quantidade de mortos entre combatentes estrangeiros, com cerca de 300 brasileiros mortos no conflito até o momento.
A lista de vítimas brasileiras que ele mencionou inclui nomes de jovens de diferentes regiões do país que se juntaram voluntariamente às forças ucranianas ou a grupos paramilitares estrangeiros, movimento que tem atraído brasileiros desde o início da invasão russa em 2022.
Esses relatos se somam a outros casos noticiados de brasileiros que se voluntariaram para lutar em território estrangeiro e vieram a falecer em confrontos, muitos deles longe de casa e sem informações oficiais claras divulgadas às famílias.
A participação de estrangeiros em conflitos armados levanta questões complexas sobre direitos, proteção consular e cobertura legal para combatentes e suas famílias. No caso específico desses brasileiros, a lacuna de dados oficiais amplia a dificuldade de obter esclarecimentos formais.
Organizações internacionais e agências governamentais normalmente seguem protocolos específicos para lidar com mortes em guerra e repatriação de corpos, contudo a aplicação prática desses protocolos em campos de batalha intensos é muitas vezes problemática.
Em nota oficial solicitada, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty) não havia respondido até o fechamento desta reportagem sobre medidas tomadas a respeito da situação de brasileiros na Ucrânia, segundo a matéria original publicada.
Especialistas em direito internacional e direitos humanos destacam que a repatriação digna de corpos é um compromisso humanitário estabelecido em convenções internacionais, embora sua efetivação dependa de acesso seguro às áreas de conflito.
A guerra na Ucrânia, desde sua deflagração em 2022, já resultou em dezenas de milhares de mortos — entre civis e militares — e deixou um legado de destruição que desafia mecanismos normativos de proteção e dignidade humana.
O relato de Rafael reforça, de acordo com analistas, a complexidade enfrentada por combatentes estrangeiros que, muitas vezes motivados por promessa de pagamento ou ideologia, encontram realidades que expõem lacunas legais e humanitárias no contexto de conflitos prolongados.
Conforme a guerra prossegue, questões sobre o tratamento de mortos, desaparecidos e repatriação de restos mortais continuam a ser tema de debate entre governantes, organizações de direitos humanos e famílias de combatentes de diversas nacionalidades.

