Quantas vezes seguimos desconhecidos plataformas de trem sem imaginar que elas podem se transformar em armadilhas?
Em um vagão do RER C, em Paris — uma mulher brasileira virou vítima de uma tentativa brutal de estupro, totalmente inesperada.
A jovem de 26 anos, identificada como Jhordana Dias, estava voltando para casa quando o trem arrancou da estação e ficou praticamente vazia.
Surpreendido, um homem entrou no compartimento, sozinho com ela, e iniciou agressões físicas, estrangulamento e tentativa de desnudamento.
O detalhe que mais impressiona: o ataque começou no momento em que o aviso sonoro de fechamento das portas soou.
A vítima relata ter pensado “ele ia me matar”.
Não se trata apenas de uma violência isolada.
Trata-se do tipo de risco que se camufla atrás do cotidiano — o transporte que usamos, a estação que atravessamos, o trem que tomamos. Quem viaja, lida com a imprevisibilidade da violência em trânsito.
Paris aparece como símbolo da segurança urbana, mas a realidade revela fissuras.
A lógica de que “em país civilizado não acontece” desmorona no momento em que a cabine silenciosa se transforma em zona de perigo.
As redes sociais, que servem para alertar e denunciar, também escancaram outro fenômeno: o público espera coragem — ou desconfiança — das mulheres.
Quando uma passageira grita e escapa, ela vira caso, manchete, alerta. Mas quantas não o fazem porque simplesmente não conseguem?
A assistência brasileira agiu: o Itamaraty afirmou que presta apoio consular. Mas o foco não pode ficar apenas no suporte externo.
A segurança no transporte público é medida de cidadania. Quando falha, apaga a liberdade de quem se locomove.
E o que dizer sobre o infrator que fugiu sem resposta, sem confrontação pública, sem demonstração visível de culpa?
A invisibilidade do agressor torna o crime ainda mais pesado — porque lhe concede impunidade simbólica.
Essa brasileira narrou algo que foge ao óbvio: não foi abordada por acaso, mas foi isolada pela arquitetura do trem, pela desatenção dos demais passageiros e por uma falha de vigilância.
É um lembrete de que a violência não cai do céu — ela se instala onde o espaço coletivo falha em vigiar.
O trem segue seu percurso, como se nada tivesse acontecido.
Mas para Jhordana, a viagem não volta ao que era antes. O corpo carrega a memória do contato, da vulnerabilidade e do susto.
E a pergunta que ecoa é dura: quantas viagens futuras serão vividas com a sensação de que “poderia ter sido eu”?
O deslocamento, que deveria significar liberdade, assume contornos de risco evitável.
No fundo, essa história é sobre trânsito — de corpos, de lugares, de vulnerabilidades.
Mas também é sobre a urgência de um transporte que proteja — e não apenas mova — vidas.
Se o trem parou para um ataque, o passageiro comum agora precisa questionar: quem me ajuda quando ocorro algo parecido?
E se o silêncio for a única resposta, quem trará de volta a travessia?
Porque a violência não acontece apenas no beco escuro.
Às vezes, ela se instala no vagão vazio que seguimos sozinhos.

