Uma mulher grávida perdeu o bebê após ter atendimento negado em uma UPA de Nilópolis (RJ). O marido, barbeiro conhecido como Jony Bravo do Corte, registrou tudo em redes sociais, denunciando que a esposa sofreu um sangramento muito forte — ele descreveu como “bola de sangue” — e foi recusada por uma médica de plantão.
Segundo o relato de Jony, o drama ocorreu na madrugada de quinta-feira (11/9). Ele afirma ter ido à UPA Municipalizada de Nilópolis por volta das 2h30 com a esposa, que sangrava, e foi informado de que não haveria atendimento.
No vídeo que viralizou, ele aparece angustiado à porta de um consultório, clamando por socorro: “Minha esposa! Está perdendo o meu filho! Vocês são mães, vocês são pais! Pelo amor de Deus!” A cena ocorreu enquanto a porta do consultório era fechada.
Ele denunciou também que quando procurou o Hospital Estadual Vereador Melchiades Calazans, a assistência foi igualmente negada. Só conseguiu que sua esposa fosse atendida depois que moradores da comunidade presenciaram o desespero e forçaram a ambulância a socorrê-la.
A transferência foi feita para a Maternidade do Hospital Municipal Juscelino Kubitschek, onde ela buscou atendimento. O marido disse que sua esposa está em recuperação.
A Prefeitura de Nilópolis, por sua vez, anunciou que abriu processo administrativo para apurar os fatos. A profissional de saúde envolvida foi afastada temporariamente. Também estão sendo revisadas as imagens do circuito interno da UPA para confirmar os relatos.
O governo estadual, segundo a reportagem, foi acionado por Jony, mas não se manifestou até o momento.
Esse caso expõe uma falha grave no atendimento de saúde pública: não só pela negativa em si, mas pela sequência de recusas — primeiro na UPA, depois no hospital estadual — que contribuem para um desfecho trágico.
Há uma intersecção clara entre deficiência estrutural e negligência aparente. O fato de moradores terem de intervir para que alguém receba auxílio é sintoma de um sistema que falha no essencial.
Também revela como os mais vulneráveis — aqui uma gestante em situação de sufoco — dependem de visibilidade social para obter direito que, por lei, deveria ser garantido automaticamente.
Há uma dimensão de poder muito desequilibrada: a médica, a equipe hospitalar, a burocracia institucional de saúde, versus o cidadão comum que suplica por socorro.
O episódio incita duas perguntas urgentes: quantos outros casos semelhantes permanecem invisíveis? E quantos gestantes em risco não têm testemunhas para obrigar providências?
Desde a Constituição Federal o direito à saúde é assegurado. O SUS prevê atendimento de urgência e emergência sem burocracia, sem pedidos de sorte ou de audiência pública.
Quando essas garantias são ignoradas, o Estado deixa de cumprir sua obrigação mais básica. E isso não é problema administrativo: é problema de dignidade, de responsabilidade civil, de justiça.
A repercussão pública é importante — mas só será significativa se vier acompanhada de mudanças: protocolos mais claros, fiscalização efetiva, responsabilização profissional.
Também deveria haver formação ética mais robusta: como lidar com emergências obstétricas? Quem decide que “não pode atender”? Sobre quais critérios?
A comunidade e a imprensa têm papel decisivo de denúncia. Mas quem deveria agir primeiro é o poder público local e estadual, com transparência.
Esse caso em Nilópolis pode se tornar símbolo de uma falha sistêmica. Se for tratado como caso isolado, serve apenas como alívio temporário para quem protesta, mas nada muda.
Para gestantes, para mães, para famílias, é uma ferida profunda. Perder um filho por omissão é tragédia que deixa marcas para sempre.
Se não houver responsabilização clara, o medo de que situações como essa se repitam continua — e a confiança no sistema de saúde segue abalada.
Fica então a pergunta final: quantas vidas mais precisam escorrer até que o Estado reconheça que o silêncio, a burocracia e o descaso têm custo — humano, ético e social — demasiado alto?

