Austrália está cada vez mais próxima de alcançar um marco histórico na saúde pública: tornar-se o primeiro país do mundo a eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública. Esse objetivo ambicioso, definido para 2035, apoia-se numa combinação de vacinas, rastreamento regular e acesso a tratamento — um modelo que pode servir de referência global.
O plano formal para essa jornada foi lançado em novembro de 2023, como National Strategy for the Elimination of Cervical Cancer. O governo australiano destinou cerca de AU$ 48,2 milhões, com a meta clara de ampliar a vacinação, garantir exames periódicos e facilitar o tratamento de lesões pré-cancerosas e câncer já instalado.
Na base desse esforço está a institucionalização da vacinação contra o Human Papillomavirus (HPV), principal causador do câncer de colo do útero. A vacinação gratuita foi implementada no sistema público desde 2007, inicialmente para meninas de 12 a 26 anos, e posteriormente expandida para meninos.
Atualmente, a vacina mais utilizada é a Gardasil 9, que protege contra os tipos de HPV que mais comumente provocam câncer cervical — especialmente os tipos 16 e 18 — além de outros associados a lesões pré-cancerosas e verrugas genitais.
Além da vacinação, o país reformulou o programa de rastreamento do câncer de colo do útero. Desde 2017, o exame de detecção de HPV substituiu o tradicional Papanicolau, passando a ser oferecido a pessoas de 25 a 74 anos, com exigência de repetição a cada cinco anos caso o teste dê negativo para HPV. Esse rastreamento mais preciso e espaçado visa detectar infecções persistentes antes que evoluam para câncer.
Estudos conduzidos pelas instituições de saúde na Austrália indicam que esse modelo combinado está surtindo efeito. Estimativas apontam que, se a cobertura vacinal e de exames for mantida, a incidência de câncer cervical pode cair para menos de 4 casos por 100 mil mulheres por ano — patamar que, para os padrões da saúde pública, representaria a “eliminação” da doença.
2020 e 2024, milhões de pessoas participaram do programa nacional de rastreamento: mais de 5,5 milhões de exames de HPV foram realizados em indivíduos de 25 a 74 anos. Isso demonstra o alcance e a adesão ao programa.
Apesar dos avanços, as autoridades alertam que a meta de eliminação depende de manutenção de altos níveis de cobertura vacinal e de rastreamento. As metas nacionais espelham os objetivos da World Health Organization (OMS): vacinar 90% da população elegível, rastrear 70% e garantir tratamento para 90% dos casos identificados. No plano australiano, essas metas são ampliadas: atingir a vacinação também entre meninos, rastreamento a cada cinco anos e tratamento adequado para 95% dos casos de lesão ou câncer.
O governo australiano também reconheceu que eliminar o câncer cervical requer atenção especial a populações vulneráveis ou marginalizadas — como comunidades indígenas, pessoas que vivem em áreas remotas, populações culturalmente diversas, pessoas com deficiência e pessoas LGBTIQA+. A estratégia prevê recursos específicos e ações de inclusão para assegurar equidade no acesso.
Um dos mecanismos para ampliar o alcance dessas iniciativas é a oferta de exames autocoletados de HPV, introduzidos no país em 2022. Essa possibilidade amplia o acesso para pessoas que, por diversos motivos — desconforto, distância, privacidade — não participavam do rastreamento tradicional.
Especialistas comemoram os sinais positivos dos últimos anos: a adoção precoce da vacina, combinada com a modernização do rastreamento e tratamento eficaz, vêm transformando o cenário da doença no país. Segundo estimativas de 2018, a transformação poderia ser alcançada em menos de duas décadas — se o ritmo atual se mantivesse.
Contudo, analistas apontam que a reversão de alguns indicadores exige atenção: a diminuição na adesão à vacinação e ao rastreamento pode comprometer o objetivo de 2035. Por isso, é fundamental que haja continuidade de campanhas educativas, acesso facilitado e engajamento comunitário.
Para além dos benefícios imediatos na Austrália, o país investe também em cooperação internacional. A estratégia contempla programas de apoio a países do Pacífico e do Sudeste Asiático por meio de parcerias de saúde, compartilhando expertise, infraestrutura e dados — uma contribuição importante para a meta global de eliminação da doença.
Considerando as projeções, especialistas estimam que até meados da década de 2030 a Austrália possa alcançar o patamar em que o câncer de colo do útero deixe de ser um problema de saúde pública — ou seja, o número de casos per capita seria tão reduzido que não justificaria mais políticas de controle em massa.
Esse cenário, se consolidado, representará um marco histórico: a primeira vez que um país erradica — para os padrões epidemiológicos — o câncer de colo do útero. O impacto seria profundo, não apenas para as pessoas vulneráveis à doença, mas como uma demonstração concreta de que vacinas e rastreamento sistemático podem vencer um dos cânceres mais comuns entre mulheres e pessoas com colo do útero.
No entanto, a eliminação não significa que o câncer deixará de existir completamente — será reduzido a níveis muito baixos, administráveis, com o risco de reaparecimento minimizado graças à imunização e detecção precoce. Esse diferencial é importante para definir metas realistas e manter os sistemas de saúde alertas.
Para garantir o sucesso desse objetivo, governos, instituições de saúde, comunidades e indivíduos precisam manter comprometimento com a vacinação, exames regulares e acesso universal a tratamento. Só assim será possível transformar a promessa de 2035 em realidade concreta.
A trajetória da Austrália mostra que, com políticas públicas robustas e estratégia integrada de prevenção, é possível sonhar com um mundo onde o câncer de colo do útero não seja mais uma ameaça — um exemplo que pode inspirar países como o Brasil a reavaliar suas políticas de imunização e rastreamento.

