Em um mundo onde quase um bilhão de pessoas vivem com menos de US$ 2 diários, Bill Gates, cofundador da Microsoft e filantropo, propôs uma solução simples, porém eficaz, para combater a pobreza extrema: a criação de galinhas. Em um artigo publicado em seu blog, Gates compartilhou sua visão sobre como a avicultura pode ser uma ferramenta poderosa para melhorar a vida de famílias em situação de vulnerabilidade.
A lógica por trás da criação de galinhas
Gates argumenta que as galinhas são animais de fácil manejo e baixo custo inicial. Uma galinha pode se alimentar do que encontra no ambiente, e vacinas essenciais, como a que previne a doença de Newcastle, custam menos de 20 centavos. Além disso, um agricultor que começa com cinco galinhas pode, em três meses, ter um rebanho de 40 aves, gerando uma renda anual superior a US$ 1.000, valor significativamente acima da linha de pobreza extrema, que é cerca de US$ 700 por ano.
Fontes de renda diversificadas
A criação de galinhas oferece múltiplas fontes de receita. Os ovos podem ser vendidos diariamente, as aves adultas também têm valor comercial, e o esterco pode ser utilizado como fertilizante ou vendido. Além disso, a reprodução das aves permite expandir o rebanho, criando um ciclo contínuo de geração de renda. Esse modelo de negócio é acessível e adaptável a diversas realidades rurais.
Impacto na saúde e nutrição
A introdução de galinhas em comunidades de baixa renda também tem um impacto positivo na saúde. O consumo de ovos, ricos em proteínas e nutrientes essenciais, pode combater a desnutrição, que é responsável por mais de 3,1 milhões de mortes infantis anuais. Muitos agricultores optam por incubar ovos para aumentar o rebanho e, com isso, gerar mais renda, mas também podem consumir ovos excedentes para melhorar a alimentação familiar.
A criação de galinhas é frequentemente uma atividade feminina, pois as aves exigem pouco espaço e permanecem próximas ao lar. Ao controlar essa fonte de renda, as mulheres ganham autonomia financeira e podem reinvestir os lucros em áreas prioritárias, como educação, saúde e nutrição. Estudos indicam que, quando as mulheres controlam a renda familiar, seus filhos têm 20% mais chances de sobreviver além dos cinco anos de idade.
Parcerias para ampliação do impacto
A Fundação Bill & Melinda Gates, em colaboração com a organização Heifer International, lançou a iniciativa “Coop Dreams”, com o objetivo de distribuir 100.000 galinhas para famílias em situação de extrema pobreza na África Subsaariana. A meta é aumentar de 5% para 30% o número de famílias rurais na região que criam galinhas melhoradas e vacinadas. Essa parceria visa não apenas fornecer os animais, mas também capacitar os beneficiários para que possam gerir de forma sustentável a atividade.
Apesar do entusiasmo de Gates, a proposta enfrentou resistência em alguns países. A Bolívia, por exemplo, recusou a oferta de galinhas, considerando-a uma afronta à sua realidade. O ministro boliviano de Desenvolvimento Rural e Tierras, César Cocarico, afirmou que o país possui produção suficiente e não necessita de doações externas, destacando a importância de respeitar a dignidade e a autonomia das nações.
A proposta de Bill Gates de investir na criação de galinhas como estratégia para combater a pobreza extrema destaca a importância de soluções simples e adaptáveis às realidades locais. Embora a iniciativa tenha gerado controvérsias, ela chama a atenção para a necessidade de repensar abordagens no combate à pobreza, priorizando a autonomia e o empoderamento das comunidades. A criação de galinhas pode ser mais do que uma atividade econômica; pode ser uma ferramenta de transformação social e melhoria da qualidade de vida.

