A estreia da série Tremembé, lançada recentemente na plataforma de streaming, reacendeu o debate em torno do condenado Cristian Cravinhos, conhecido por seu envolvimento no assassinato dos pais de Suzane von Richthofen. A produção retrata, entre outros aspectos, o período de Cristian no sistema prisional e inclui uma cena em que ele aparece usando uma calcinha. O detento, por sua vez, negou que tenha usado a peça íntima, afirmando que a trama contém “mentiras”.
De acordo com o roteirista Ullisses Campbell, que assina o roteiro da série, há provas materiais que confirmam o episódio retratado. Ele publicou nas redes sociais uma imagem da calcinha que, segundo ele, teria sido utilizada por Cristian dentro do presídio, além de uma carta de amor escrita por Cristian a outro detento identificado como “Duda”.
Cristian, por meio de suas redes, rejeitou a construção da série sobre essa parte de sua vida. “A série é mentirosa! Acordem!”, escreveu ele, criticando a representação de sua conduta carcerária e alegando que os fatos foram distorcidos com o objetivo de gerar audiência.
Na versão da trama, o personagem inspirado em Cristian (interpretado pelo ator Kelner Macêdo) desenvolve um relacionamento íntimo com outro preso, apelidado “Luka” na ficção, correspondente ao detento real Ricardo de Freitas Nascimento, conhecido como “Duda”. A cena da calcinha emerge como parte de sua narrativa de romance dentro do cárcere.
Duda, por sua vez, em pronunciamento à imprensa, reafirmou que o relacionamento existiu. Ele afirmou possuir correspondências, testemunhas e objetos que comprovariam o vínculo com Cristian durante o cumprimento da pena. “Não é fácil para ele, ele é um hétero. O mundo dele é outro, claro que ele não vai assumir que teve um caso com um gay dentro da unidade. Mas ele teve sim, e eu posso provar. Tenho cartas, tenho calcinha…” afirmou o ex-detento.
A controvérsia ganhou força nas redes sociais e nos portais de notícias. O acervo exibido pelo autor da série — sobretudo a calcinha e a carta — foi recebido como evidência de que os trechos da obra que Cristian contesta teriam base em fatos, segundo o roteirista. Para ele, “no jornalismo, um testemunho gravado não basta para publicar uma história, sobretudo quando ela é controversa. Muitas vezes é necessário apresentar provas materiais”.
Do outro lado, Cristian sustenta que o episódio da calcinha não ocorreu, vê a cena como uma invenção da produção ou uma distorção de fatos, e acusa a equipe de aproveitar-se da notoriedade do seu nome para impulsionar audiência. Essa postura evidencia a tensão entre o retrato ficcionalizado da obra e a percepção pessoal do condenado.
Especialistas em mídia e criminalidade avaliam que casos de série que dramatizam crimes reais frequentemente enfrentam esse tipo de disputa: de um lado, a produção afirma retratar fatos com apoio documental; do outro, os personagens reais contestam a veracidade. A repercussão pública reforça esse embate entre entretenimento e memória judicial.
Nesse sentido, o episódio coloca em destaque questões de ética na produção audiovisual de true crime, tais como o equilíbrio entre fidelidade histórica e licença dramatúrgica, além do direito dos retratados de contestarem sua versão. A presença de evidências materiais, como objetos ou correspondências, pode influenciar o debate sobre a veracidade de trechos narrativos.
Para o público, a série funciona como um convite à reflexão sobre o sistema prisional e as redes de poder entre detentos, bem como sobre a própria figura de Cristian e as implicações de sua condenação. Ao mesmo tempo, a resposta de Cristian revela o impacto desse retrato em sua trajetória, ainda que restrita ao ambiente carcerário.
No panorama jurídico, a difusão desse tipo de conteúdo abre discussões sobre privacidade de detentos, direito à imagem, presunção de inocência (ou cumprimento da penalidade) e os limites de produção da mídia ao abordar casos sensíveis. Existiriam também repercussões em âmbito reputacional, tanto para o condenado quanto para familiares e vítimas.
A série “Tremembé” é baseada em obras do autor Campbell e retrata, entre outros temas, a rotina de figuras infames encarceradas no complexo prisional de Penitenciária Doutor José Augusto César Salgado, conhecida como Tremembé II. O ambiente penitenciário se transforma em cenário de narrativas pouco exploradas pela grande mídia até então.
A produção conta com a direção de Vera Egito, entre outros roteiristas, e foi desenvolvida com base em relatos, investigações e entrevistas, conforme anunciado pelo streaming. O desafio era retratar não apenas os crimes, mas os bastidores da vida de detentos em unidades de alta notoriedade.
No cerne da discussão está a figura de Cristian Cravinhos, que juntamente com seu irmão Daniel Cravinhos, está envolvido no caso Richthofen. A repercussão em torno de sua imagem pública continua intensa, e a série potencializa esse debate ao trazer à tona aspectos mais íntimos ou controversos de sua permanência no sistema penal.
Para o setor de autorretratos de criminosos e produção audiovisual, esse embate ilustra como a construção de narrativas pode gerar retratações conflitantes: de um lado, a obra busca ser contundente, até chocante; de outro, os retratados querem preservar ou defender sua versão dos fatos. A emissora e os criadores precisam lidar com críticas e contestações.
No contexto social, a polêmica reacende o interesse em torno de crime de grande repercussão, reforçando a marca dos irmãos Cravinhos no imaginário público. A apropriação de objetos simbólicos — como a calcinha — adiciona um componente simbólico à produção e à controvérsia, amplificando a atenção do público.
Por fim, permanece em aberto o juízo da opinião pública: o que é fato, o que é dramatização e o que é autopromoção ou manipulação narrativa? Enquanto a série segue disponível para o público, a resposta individual de Cristian Cravinhos e a repercussão dos documentos apresentados pelo autor da obra prometem manter o tema em evidência.

