ATENÇÃO! Pressão de 12 por 8 é reclassificada como pré-hipertensão

Quando a medicina decide mudar a régua do que é considerado saudável, estamos diante de ciência ou de uma redefinição cultural do corpo?

 

A divulgação das novas diretrizes de hipertensão no 80º Congresso Brasileiro de Cardiologia, nesta quinta-feira (18), reacendeu esse debate.

 

Três sociedades médicas — Cardiologia, Nefrologia e Hipertensão — uniram-se para afirmar: pressão entre 12 por 8 e 13,9 por 8,9 já não é mais apenas “limítrofe”, mas pré-hipertensão.

 

À primeira vista, a mudança parece apenas técnica. Um ajuste de parâmetros, um detalhe estatístico.

 

Mas na prática, ela redefine milhões de brasileiros que, de um dia para o outro, passaram de “normais” a “em risco”.

 

Esse movimento não é inédito. Nos Estados Unidos, diretrizes semelhantes já foram alvo de críticas, acusadas de “medicalizar” a vida cotidiana.

 

A questão central é: estamos ampliando a prevenção ou fabricando novos pacientes?

 

Os médicos defendem que o objetivo é claro: intervir mais cedo, quando ainda é possível controlar o avanço com ajustes de estilo de vida.

 

Atividade física, alimentação equilibrada, menos sal, sono regular. Nada de novo na cartilha da saúde preventiva.

 

No entanto, a própria diretriz admite que, em alguns casos, pode haver indicação de medicamentos já nesse estágio.

 

E aqui reside o ponto sensível: a fronteira entre prevenção legítima e expansão do mercado farmacêutico.

 

A hipertensão é silenciosa, mas devastadora. Responde por infartos, AVCs e doenças renais crônicas. O Brasil convive com uma epidemia invisível.

 

Ao mesmo tempo, transformar a pressão “quase normal” em doença potencial pode gerar ansiedade, estigmatização e sobrecarga no sistema de saúde.

 

O paciente que antes se sentia saudável passa a carregar a identidade de “pré-hipertenso”, rótulo que altera a forma como se percebe e como é visto.

 

Há ainda um efeito cultural: em um país onde a saúde pública já é precária, ampliar o número de pessoas “em risco” exige mais recursos, mais consultas, mais exames.

 

Quem ganha e quem perde nesse processo? A resposta depende de como essa diretriz será implementada fora dos congressos e dentro dos consultórios.

 

Se for um chamado real à mudança de hábitos, pode salvar vidas silenciosamente.

 

Se for interpretada como passaporte para medicalização precoce, pode transformar o risco em indústria.

 

A pergunta que fica é: até onde vai o cuidado, e onde começa o excesso?

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