A suposta ressurreição digital de “Japinha do CV” — uma figura ligada ao tráfico dada como morta, mas que reaparece em novas postagens nas redes sociais — é muito mais do que um boato. É um estudo de caso sobre a necropolítica da fama no submundo carioca.
No universo do crime organizado, a morte, ou a simulação dela, é uma ferramenta de poder, uma tática de guerra e, sobretudo, um motor de mito.
O boato da morte de figuras femininas do tráfico, seguido pelo seu misterioso reaparecimento online, tem um propósito duplo: enganar a inteligência policial e amplificar a própria lenda.
“Japinha” não é apenas uma pessoa; é uma marca. Seu status de “morta-viva” reforça a imagem de invulnerabilidade e onipresença da facção.
A lenda de que “ela está viva” é mais valiosa para o Comando Vermelho do que sua presença física. Ela se torna um ícone digital de resistência e desafio ao Estado.
É um fenômeno de propaganda: a facção utiliza as redes sociais para criar e sustentar figuras que operam na fronteira entre o real e o lendário.
O reaparecimento, cuidadosamente coreografado, garante que a figura permaneça relevante no feed de notícias, mantendo o tráfico no topo da agenda midiática do caos.
A dinâmica é simples: a morte gera comoção e marketing gratuito. O retorno nega o sucesso do Estado e fortalece a ideia de que o crime é indestrutível.
A jovem se transforma em um avatar da insurgência, um símbolo que atrai seguidores e, mais importante, recruta novos membros que se veem espelhados nesse ciclo de violência e fama.
A figura feminina no topo da hierarquia, mesmo que fugidia, desafia a narrativa patriarcal tradicional do crime e, por isso, tem um apelo ainda mais potente nas redes.
O “estar viva” significa que a inteligência policial foi driblada, que as informações de óbito eram falhas e que a vigilância do Estado é ineficaz.
Isso desmoraliza a narrativa oficial de sucesso em operações e fortalece a percepção local de que o crime sempre tem um passo à frente.
No front digital, a verdade factual é menos importante do que a eficácia da crença. Se a comunidade e os rivais acreditam que “Japinha” está viva, seu poder se mantém intacto.
A Polícia Civil precisa investigar a autenticidade dessas postagens não apenas como prova de vida, mas como evidência de uma tática de guerra de informação por parte do CV.
O verdadeiro crime aqui não é apenas o tráfico, mas a manipulação da realidade através da performance digital da impunidade.
O mito de “Japinha” e outras figuras análogas é um lembrete de que o crime organizado do século XXI é uma empresa de produção de conteúdo de alto risco.
Eles não só vendem drogas; vendem uma fantasia de poder, riqueza e resistência que tem imenso apelo em um contexto de profunda desigualdade.
A mídia, ao repercutir a incerteza (“está viva, confira”), atua como amplificadora involuntária do mito, dando-lhe fôlego e legitimidade.
Para romper esse ciclo vicioso, é preciso que o Estado não apenas desminta o boato, mas anule a condição social que torna a violência tão atraente e lendária.
A lenda de “Japinha” é a prova de que a batalha final não será vencida apenas com fuzis, mas com a capacidade de desconstruir o mito e oferecer uma realidade mais convincente do que a fantasia da fama criminosa.
O maior perigo não é que ela esteja viva, mas que o mito continue a recrutar e operar no vasto e vulnerável território da internet brasileira.
gistro e memória?

