Quantas mortes são necessárias para que um problema invisível ganhe a dimensão de uma crise nacional?
O Brasil soma 113 casos suspeitos de intoxicação por metanol, com 12 mortes no radar das autoridades de saúde. Bahia, Paraná e Mato Grosso do Sul emergem como pontos críticos de um fenômeno que, à primeira vista, parece pontual, mas carrega sintomas de algo maior.
O álcool falsificado não é uma novidade no país. Ele reaparece em ondas, sempre que fiscalização relaxa ou quando há espaço para lucrar com a fragilidade do consumidor.
A diferença agora está na escala e no timing: a proliferação coincide com um aumento expressivo do consumo em bares, festas e eventos, cenário perfeito para o risco se espalhar.
Metanol não é apenas uma fraude: é veneno. Uma substância usada em combustíveis e solventes, que, no corpo humano, destrói nervos ópticos e órgãos vitais. A diferença entre a diversão e a morte pode estar em um gole.
O alerta nacional emitido pelo Ministério da Saúde é sintoma de uma tensão maior: até que ponto conseguimos controlar a cadeia de bebidas no Brasil?
A fragilidade não está apenas no ponto final, no copo do consumidor, mas em todo um ecossistema mal fiscalizado. Da produção clandestina às brechas logísticas, o que se vê é um ciclo que desafia qualquer tentativa de controle centralizado.
Os números oficiais — 12 casos confirmados e 47 em investigação — são apenas a superfície. Toda crise de intoxicação por metanol começa com subnotificação. Muitos sequer chegam ao hospital, ou têm sintomas confundidos com embriaguez comum.
A tragédia, nesse sentido, é dupla: primeiro, porque mata de forma cruel; depois, porque escapa às estatísticas até ser tarde demais.
Há também o fator cultural. O consumo de bebidas destiladas baratas, de origem duvidosa, não é apenas uma escolha de risco: muitas vezes é a única opção acessível para camadas da população que associam o lazer ao álcool.
Nesse contexto, culpar apenas o consumidor é um erro conveniente. A responsabilidade é sistêmica, envolvendo fiscalização, políticas públicas e a própria indústria formal, que pouco faz para se diferenciar em mercados vulneráveis.
Um olhar atento mostra que o problema é mais do que saúde pública: é também economia informal, desigualdade e fragilidade institucional.
No fundo, a crise do metanol é um retrato do Brasil em escala reduzida: precariedade transformada em mercado, risco normalizado e vidas trocadas por margens de lucro.
A pergunta que fica é se aprenderemos algo desta vez. Ou se, como em outras crises silenciosas, o impacto será esquecido assim que as manchetes migrarem para outro escândalo.
É provável que, sem uma mudança estrutural, os números oficiais cresçam nas sombras. E que, ao final, o Brasil continue a conviver com venenos disfarçados de celebração.
A epidemia invisível do metanol não é apenas sobre 12 mortes. É sobre a corrosão de uma rede social que permite que tragédias assim se repitam, sem que nada mude de fato.
E, até que isso mude, a cada gole dado sem certeza de origem, permanece a dúvida: trata-se de um brinde ou de uma sentença?

