Quando uma peça de arte consiste literalmente em nada — ou melhor, em “ar e espírito”, nas palavras do próprio artista — a pergunta que se impõe não é “o que é isso?”, mas “por que alguém paga tanto?”. Esse é o dilema levantado pelo italiano Salvatore Garau, que vendeu sua escultura imaterial intitulada Io Sono (em português, “Eu Sou”) por cerca de €15.000 (aproximadamente US$ 18.300).
A obra não tem forma visível — o comprador recebeu apenas um certificado de autenticidade e instruções para delimitar um espaço de cerca de 1,5 × 1,5 metros para “exposição”. Garau defende que o “vácuo” que vendeu é “um espaço cheio de energia” — referindo-se inclusive ao princípio da incerteza de Heisenberg.
O alcance desse gesto artístico vai além da provocação: ele atinge o âmago da economia simbólica da arte contemporânea — onde o que vale pode não ser objeto, mas ideia. Aqui reside o “e daí?” crucial. O que estamos comprando realmente: a obra, o autor ou a narrativa construída em torno dela?
No mercado de arte, a tangibilidade sempre foi critério de valor — madeira, tela, forma, matéria. Garau desloca esse critério para o imaterial. É como se no lugar do diamante visível, vendêssemos a luz que ele reflete. A aceitação disso por colecionadores é o indício de que o valor artístico está cada vez mais em circulação do que em objeto.
Há um contraponto inevitável: críticos veem na peça uma paródia à própria arte — “o rei está nu” declamado com caução. Em fóruns online, muitos chamaram a obra de golpe ou brincadeira elitista.
Mas seria esse julgamento justo? Talvez o movimento de Garau seja uma cartografia aguda das fissuras da cultura de consumo: quando vendemos “status”, “exclusividade”, “posse”, mesmo que o que possuímos seja intangível, o preço pode ser o de um objeto real.
Esse caso nos obriga a investigar três camadas: por que o mercado aceita invisibilidade como bem; como se estabelece o preço do que não se vê; e principalmente o que isso revela sobre nossa relação com valor, arte e credibilidade.
Garau opera na linha entre provocação e negócio — entre filosofia e tapete de riqueza. Ele sugere que arte não precisa ocupar espaço para habitar a mente. Mas até que ponto esse deslocamento é libertador e até que ponto se torna mera operação financeira?
Na prática: uma obra que se coloca fora da matéria desafia auditorias, logística, instalação — e por consequência fiscalizações mínimas. Isso abre Bahia de questionamentos éticos sobre transparência e mercados fechados.
Para o colecionador, há vantagem: “posse” de algo exclusivo, mesmo que não visível. A aura, o certificado e o status substituem o objeto. Para o artista e o público, talvez sobre a provocação: se posso vender o vazio, o que restará para a arte “normal”?
E o “normal” talvez esteja sob risco. Num mundo em que audio, vídeo, NFT, “metaverso” e agora invisível ocupam o lugar da matéria, o valor deixa de ser atrelado à forma para residir em registro, contrato e contexto.
Em última instância, o caso “Io Sono” nos obriga a pensar: se a arte pode valer e existir sem corpo, por que o resto de nós ainda exige comprovação visível para acreditar? E, pior, por que aceitamos pagar por isso — ou chamar de arte?
Talvez o futuro da arte não seja mais sobre “ver para crer”, mas sobre “crer para ver” — ou melhor, “crer para não ver”. E aí reside a maior ironia: quando vendemos nada, o comprador paga tudo.

