O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, surpreendeu ao se alinhar com os Estados Unidos e defender que facções brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho sejam classificadas como organizações terroristas, posição que contrasta diretamente com a postura do governo Lula. O tema ganhou destaque após encontro bilateral em Brasília, expondo divergências estratégicas entre os dois países.
O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Rodrigo Paz, realizado no Palácio do Itamaraty, tinha como objetivo reforçar a cooperação no combate ao crime organizado transnacional. No entanto, a declaração do líder boliviano trouxe uma nova dimensão ao debate, ao afirmar que o PCC e o CV representam uma forma de terrorismo.
Segundo Paz, o terrorismo pode assumir diferentes classificações, mas o impacto das facções na região se enquadra nesse conceito. Ele destacou que a Bolívia considera central em sua missão combater não apenas o narcotráfico e as máfias, mas também o terrorismo, do qual essas organizações fariam parte.
A posição boliviana ecoa a estratégia defendida por Washington, especialmente desde o governo Donald Trump, que já havia sugerido enquadrar grupos criminosos latino-americanos como terroristas. Paz esteve com Trump em Miami, durante a cúpula “Escudo das Américas”, e reforçou esse alinhamento.
O governo brasileiro, por sua vez, mantém resistência. Para o Planalto e o Itamaraty, a classificação abriria espaço para sanções internacionais e poderia legitimar ações militares dos EUA na região, algo visto como ameaça à soberania nacional.
Além disso, há preocupação política. Lula e seus aliados avaliam que a medida poderia ser explorada pela oposição em meio ao cenário eleitoral, transformando o tema em arma retórica contra o governo.
O chanceler Mauro Vieira já havia manifestado preocupação em conversa com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. O Brasil teme que a narrativa de “terrorismo” amplifique tensões diplomáticas e crie justificativas para intervenções externas.
A decisão da Bolívia também foi acompanhada de ações práticas. Dias antes do encontro com Lula, forças policiais bolivianas prenderam em Santa Cruz de la Sierra o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, considerado um dos mais procurados pela DEA, e o extraditaram imediatamente para os Estados Unidos.
Marset, de 34 anos, tinha conexões com facções brasileiras e foi capturado junto com sua equipe de segurança, em operação que resultou na apreensão de armas de grosso calibre. O episódio reforçou a disposição boliviana em cooperar diretamente com Washington.
Esse movimento coloca Lula em posição delicada. Enquanto busca fortalecer a integração regional e preservar autonomia frente às grandes potências, vê vizinhos como Bolívia e Paraguai se aproximarem da agenda americana.
O presidente boliviano argumenta que a realidade da violência exige medidas mais duras. Para ele, ignorar o caráter terrorista das facções seria minimizar o impacto que elas têm sobre sociedades inteiras.
No Brasil, especialistas em segurança divergem. Alguns defendem que a classificação poderia facilitar cooperação internacional e ampliar instrumentos legais contra o crime. Outros alertam para os riscos de militarização e perda de controle sobre políticas internas.
A divergência entre Brasília e La Paz evidencia como o combate ao narcotráfico e às facções se tornou tema geopolítico. Não se trata apenas de segurança pública, mas de disputas de influência entre governos da região e os Estados Unidos.
O encontro no Itamaraty, que deveria simbolizar unidade, acabou revelando fissuras. Lula reforçou a importância da cooperação, mas evitou endossar a visão de Paz sobre terrorismo.
A posição boliviana também pode impactar negociações futuras. Ao se alinhar com Washington, Paz sinaliza que pretende estreitar laços com os EUA, mesmo que isso signifique contrariar o Brasil.
Esse cenário cria desafios adicionais para a diplomacia brasileira, que busca equilibrar relações com vizinhos e conter a expansão da influência americana na América do Sul.
O debate sobre terrorismo e facções, portanto, transcende fronteiras. Ele envolve questões de soberania, política interna e estratégias de segurança regional.
Enquanto Lula tenta preservar autonomia e evitar que o tema seja usado politicamente, Paz aposta em uma narrativa mais dura, que aproxima seu país dos Estados Unidos.
A captura de Marset e sua rápida extradição reforçam que a Bolívia está disposta a agir de forma prática, não apenas retórica, no combate ao narcotráfico.
O Brasil, por outro lado, insiste em tratar o problema como questão de segurança pública e criminalidade organizada, sem recorrer ao rótulo de terrorismo.
Essa diferença de abordagem pode marcar os rumos da cooperação regional nos próximos anos, definindo até que ponto os países da América do Sul estarão alinhados com Washington ou buscarão caminhos próprios.
Em síntese, o encontro entre Lula e Paz revelou mais do que acordos diplomáticos: expôs uma disputa de narrativas sobre como enfrentar facções criminosas que desafiam fronteiras e governos.

