Durante dois anos, o mundo seguiu girando. Guerras começaram e terminaram, governos mudaram, redes sociais trocaram de modas. Mas, para Evyatar David, o tempo ficou preso em uma caverna.
Aos 24 anos, ele foi sequestrado durante o Festival de Música Nova, em 7 de outubro de 2023 — a data que marcou o início de uma das mais sombrias crises humanitárias da região. Desde então, Evyatar deixou de existir para o mundo dos vivos, sobrevivendo em túneis sob Gaza, entre torturas, fome e o medo constante da morte.
Agora, ele volta para casa. Mas o que significa “voltar” depois de dois anos no subterrâneo?
O caso de Evyatar transcende a tragédia individual. É um retrato cru de um conflito que devora juventudes, sonhos e a própria noção de humanidade. Seu cativeiro, descrito em detalhes pelas autoridades israelenses, não é apenas físico — é simbólico.
Viver sem ver a luz do dia, cavar a própria sepultura, ser reduzido a um corpo que obedece e resiste: essa é a anatomia da desumanização. E, paradoxalmente, também da resistência.
Enquanto Evyatar era mantido sob a terra, o debate político em Israel e no mundo se tornava cada vez mais árido. Entre pedidos de cessar-fogo e ataques retaliatórios, o destino dos reféns se transformou em moeda de disputa moral e diplomática.
A libertação de Evyatar, portanto, não é apenas uma vitória pessoal — é uma ferida exposta. Ela obriga o mundo a encarar a pergunta que todos evitam: até que ponto um conflito pode justificar a perda total da empatia?
A guerra de Gaza já não é travada apenas por territórios, mas por narrativas. Cada lado tenta reivindicar o monopólio do sofrimento, como se dor tivesse fronteiras. E é justamente aí que histórias como a de Evyatar rasgam o discurso.
Porque, diante de um jovem que passou dois anos embaixo da terra, nenhuma ideologia é suficiente para explicar.
O reencontro com a família, as primeiras palavras, o primeiro olhar para o sol — tudo isso adquire peso simbólico. É o renascimento de alguém que sobreviveu àquilo que não tem nome.
Mas o trauma não termina na superfície. A reconstrução da vida de Evyatar será lenta, fragmentada. A memória de quem viveu no escuro não se apaga com luz natural.
Talvez o maior desafio agora seja reaprender a viver em um mundo onde o céu ainda existe. Onde há risos, música e liberdade — as mesmas coisas que lhe foram tiradas.
Sua história ecoa além de Israel e Gaza. Ela fala de todos os que foram enterrados vivos por guerras, sistemas e ideologias. De todos os que, mesmo soterrados, continuaram respirando.
No fim, Evyatar volta para casa, mas o mundo que o recebe é outro. Um mundo que, talvez, precise tanto de cura quanto ele.
E a pergunta que permanece é simples e devastadora: quantos ainda estão lá embaixo — e quantos de nós continuam cavando, mesmo sem perceber?

