O Congresso Nacional transformou-se em um cenário de confronto físico e tensão política extrema na tarde desta quinta-feira (26). A CPI Mista do INSS aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, filho do presidente da República, em uma sessão que terminou em pancadaria entre parlamentares.
O resultado de 14 votos a 7 a favor da medida deflagrou um tumulto que exigiu a intervenção da Polícia Legislativa e resultou em relatos de agressões físicas no coração do Poder Legislativo.
A confusão escalou rapidamente quando deputados da base governista, inconformados com a condução dos trabalhos pelo relator Alfredo Gaspar (União-AL), avançaram em direção à mesa diretora. O que começou como um protesto verbal descambou para empurrões e trocas de socos. O deputado Luiz Lima (PL-RJ) afirmou publicamente ter sido atingido durante o embate, que envolveu nomes como Rogério Correia (PT-MG) e Evair de Melo (PP-ES).
A sessão precisou ser suspensa às pressas para que os ânimos fossem contidos por colegas que tentavam separar os envolvidos.
O “e daí?” político desse episódio reside na fragilidade do rito de votação simbólica em temas de altíssima voltagem. O ministro Paulo Pimenta, licenciado para atuar na articulação política, liderou o coro pela anulação da votação, alegando que não houve o “contraste claro” exigido pelo regimento interno para validar decisões sem contagem nominal de votos.
O governo aposta na análise das imagens da TV Senado e nos registros da secretaria da Casa para provar que houve irregularidade processual e, assim, derrubar a quebra de sigilo de Lulinha em instâncias superiores ou na própria mesa da comissão.
A investigação que mira o filho do presidente busca conexões com supostas irregularidades em contratos do INSS, mas a abrangência da CPI mista nesta quinta-feira foi além. Os parlamentares também aprovaram a quebra de sigilos bancário e fiscal do Banco Master e a convocação de seu ex-CEO, Augusto Ferreira Lima. Outro nome que entrou na rota de colisão da comissão foi Gustavo Gaspar, ex-assessor do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, indicando que as investigações estão alcançando o entorno de figuras poderosas de diversos espectros políticos.
O Banco Master tornou-se alvo de requerimentos específicos que buscam mapear fluxos financeiros possivelmente atípicos relacionados à gestão da autarquia previdenciária. A aprovação da convocação de seu ex-dirigente sugere que a CPI possui indícios ou linhas de investigação que tentam ligar a instituição financeira a operadores do esquema. Essa expansão do escopo investigativo aumenta a pressão não apenas sobre o Planalto, mas sobre as articulações do próprio Congresso Nacional, criando um ambiente de “salve-se quem puder” nos bastidores.
A base governista classifica as convocações e quebras de sigilo como uma “ofensiva coordenada da oposição” para desgastar a imagem do presidente Lula em um ano estratégico. Por outro lado, o relator Alfredo Gaspar sustenta que as medidas são técnicas e necessárias para esclarecer citações feitas em depoimentos anteriores.
A oposição argumenta que, se não há nada a esconder, não haveria motivo para o desespero que resultou no confronto físico dentro do plenário.
A estratégia jurídica da defesa de Lulinha deve seguir o caminho da contestação do rito parlamentar. Se ficar comprovado que a votação simbólica foi forçada sem a clareza necessária, o STF poderá ser acionado para anular a decisão, alegando vício de procedimento.
Esse movimento é comum em CPIs, onde a forma muitas vezes acaba sendo tão importante quanto o conteúdo para a validade das provas colhidas.
Enquanto a validade da votação é discutida, a Polícia Legislativa deve analisar as imagens para identificar os responsáveis pelas agressões. Parlamentares envolvidos no conflito podem enfrentar processos no Conselho de Ética, o que adiciona mais uma camada de complicação ao funcionamento da comissão.
O clima de hostilidade dificulta a construção de um relatório imparcial e transforma cada nova sessão em um campo de batalha política.
A convocação de Gustavo Gaspar é particularmente sensível para o Senado, pois atinge diretamente a equipe de um dos senadores mais influentes da Casa. Davi Alcolumbre tem mantido silêncio sobre a convocação de seu ex-assessor, mas a movimentação é lida como um recado de que a CPI não poupará aliados de nenhum dos lados se encontrar rastros que levem a desvios no INSS.
A sociedade observa com perplexidade a cena de deputados trocando socos por conta de quebras de sigilo. O episódio de quinta-feira desgasta a imagem do Parlamento e reforça a percepção de uma polarização que impede o debate técnico sobre as contas públicas e a previdência.
O foco, que deveria estar na correção de possíveis fraudes que prejudicam milhões de segurados do INSS, acaba desviado para as manchetes de violência e escândalos familiares.
Por fim, o futuro da CPI do INSS em 2026 depende agora da decisão da mesa diretora sobre o pedido de anulação feito por Paulo Pimenta. Se a votação for mantida, o acesso aos dados bancários de Lulinha e do Banco Master poderá revelar conexões inéditas ou servir apenas como munição retórica para a oposição.
O que é certo é que o nível de beligerância atingido nesta sessão marca um ponto sem retorno na relação entre base e oposição dentro do colegiado.

