Há crimes que chocam pela brutalidade. Outros, pelo silêncio que os cerca. Os casos dos cães Orelha e Caramelo, em Florianópolis, pertencem às duas categorias.
A Polícia Civil de Santa Catarina encerrou a investigação sobre a morte de Orelha, ocorrida na Praia Brava no início de janeiro. A conclusão é desconfortável: apenas um adolescente teve participação direta nas agressões fatais.
A resposta institucional veio no formato previsto pela lei. A internação provisória do jovem foi solicitada. O processo, do ponto de vista jurídico, segue seu curso.
Mas o incômodo não se dissolve com um despacho judicial. Ele apenas muda de forma.
No inquérito relacionado ao cão Caramelo, o cenário se amplia. Quatro adolescentes podem responder pelas agressões, segundo a polícia.
Para chegar a essas conclusões, foram analisadas mais de mil horas de imagens de câmeras de segurança. Vinte e quatro testemunhas prestaram depoimento. Um esforço investigativo incomum para crimes contra animais.
Esse dado, por si só, já diz algo importante. Não se trata de um episódio isolado, nem de um impulso momentâneo sem contexto.
A violência, aqui, parece ter sido praticada com método, repetição e, sobretudo, com a sensação de impunidade.
Há um detalhe que raramente ganha destaque: a presença do grupo. A dinâmica coletiva dilui a culpa individual e normaliza o que deveria ser intolerável.
O adolescente apontado como autor direto não surge do nada. Ele opera dentro de um ambiente onde a agressão encontra eco, risos ou omissão.
É tentador reduzir o caso à idade dos envolvidos. Adolescência, impulsividade, falta de limites. Explicações fáceis costumam aliviar consciências.
Mas elas ignoram o essencial: a violência contra animais é um marcador precoce de falhas mais profundas de socialização.
Não é coincidência que estudos associem maus-tratos a animais a comportamentos violentos futuros. O elo não é moralista, é empírico.
Quando um cachorro se torna alvo, o que está sendo testado é o limite do aceitável. E, muitas vezes, o limite cede.
O trabalho da polícia foi minucioso. Isso importa. Investigar com seriedade sinaliza que a vida animal não é descartável.
Ainda assim, a resposta institucional chega depois do irreversível. Orelha está morto. Caramelo foi violentado.
A pergunta que fica não é apenas “quem fez”, mas “quem deixou acontecer”.
Câmeras registram. Testemunhas observam. A agressão se prolonga. Em algum ponto, a violência vira espetáculo.
O desafio real está antes do inquérito. Está na educação emocional, no reconhecimento do outro — humano ou não — como alguém que sente dor.
Punir é necessário. Prevenir é urgente.
Se esses casos servirem apenas para estatísticas ou indignação passageira, falharam de novo.
Mas se nos obrigarem a encarar o que toleramos em silêncio, talvez Orelha e Caramelo não tenham sofrido em vão.
A violência contra animais nunca começa neles. Ela começa onde a empatia termina.

