A tensão institucional em torno da Operação Compliance Zero atingiu o gabinete do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta semana. Os senadores Magno Malta (PL-ES) e Eduardo Girão (Novo-CE) encaminharam um pedido formal ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, solicitando o reforço imediato da segurança pessoal do ministro André Mendonça.
O magistrado é o relator do inquérito que investiga um sofisticado esquema de corrupção, fraudes financeiras e a atuação de uma suposta “milícia privada” ligada ao grupo empresarial do setor bancário comandado por Daniel Vorcaro.
No ofício enviado à PF, os parlamentares argumentam que a medida preventiva é imperativa diante da periculosidade e do alcance da organização investigada. Segundo o documento, as apurações revelaram que o grupo possuía uma estrutura profissional de monitoramento e intimidação, capaz de mapear e pressionar adversários, jornalistas e autoridades.
O temor dos senadores é que, com o avanço das investigações sobre o Banco Master, a integridade física do relator do caso no STF possa estar sob ameaça direta de retaliação.
O “e daí?” político deste pedido reside na gravidade das evidências de que o setor financeiro estaria financiando métodos de coação típicos do crime organizado. A existência de uma estrutura de inteligência paralela, supostamente operada pelo empresário Daniel Vorcaro, coloca em xeque a segurança não apenas do mercado, mas dos pilares da República. Para Magno Malta e Eduardo Girão, o Estado não pode permitir que um ministro da Suprema Corte trabalhe sob a sombra da intimidação de grupos econômicos que se comportam como máfias.
A preocupação dos parlamentares intensificou-se após o desfecho trágico da última quarta-feira (4), quando Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, morreu enquanto estava sob custódia na Superintendência da PF em Belo Horizonte. Mourão, apontado como o braço técnico da organização para ataques digitais e espionagem, foi encontrado sem vida em sua cela.
Em comunicado oficial, a Polícia Federal informou que o preso tirou a própria vida, mas o episódio gerou um clima de incerteza sobre a segurança dos envolvidos e o destino das provas.
A morte de “Sicário” eliminou um dos principais elos de prova viva do esquema, o que, na visão dos senadores, pode tornar os alvos remanescentes da operação ainda mais desesperados e agressivos. O pedido de reforço para André Mendonça visa blindar o processo contra qualquer tentativa de “decapitação judicial” ou coação física que impeça o magistrado de proferir decisões de busca e apreensão ou prisões preventivas contra a cúpula do Grupo Master.
Dentro da Polícia Federal, o pedido está sendo analisado com prioridade pela Divisão de Proteção à Pessoa (DPP). A corporação já mantém protocolos rígidos para ministros do STF, mas a inclusão de ameaças vindas de uma “milícia digital corporativa” exige novas táticas de contrainteligência.
Isso inclui o monitoramento de possíveis tentativas de invasão cibernética aos dispositivos do ministro e a varredura constante de sinais de vigilância física por parte de agências de detetives particulares contratadas pelo grupo investigado.
A Operação Compliance Zero já reuniu indícios de que o grupo de Vorcaro utilizava salários milionários para recrutar ex-agentes de segurança e especialistas em tecnologia para atuar na perseguição de opositores. O uso do termo “milícia privada” no ofício dos senadores reflete a percepção de que o poder econômico do banco foi desviado para criar um exército de intimidação, subvertendo as regras da livre concorrência e do estado de direito.
No Congresso, a movimentação de Malta e Girão busca também pressionar por uma maior transparência sobre as mortes em custódia e as relações entre o sistema financeiro e o submundo da espionagem. Os parlamentares defendem que a segurança de André Mendonça é a garantia de que a Operação Compliance Zero chegará ao fim sem interferências externas.
O caso Master tornou-se o epicentro de uma crise que une crimes de “colarinho branco” a táticas de violência típicas de grupos paramilitares.
A defesa de Daniel Vorcaro e do Banco Master continua negando qualquer envolvimento com atividades ilegais ou métodos de intimidação, classificando as acusações de “milícia privada” como fantasiosas e sem embasamento fático. No entanto, para os senadores que assinam o pedido, a cautela deve prevalecer sobre a retórica da defesa, especialmente quando o relator do caso detém o poder de decidir sobre a liberdade e os bens de indivíduos com vasto poder financeiro.
A tecnologia será central no reforço da segurança do ministro. Além de escolta física, a PF deve implementar sistemas de criptografia de ponta a ponta e auditorias frequentes nos sistemas de comunicação do gabinete de Mendonça no STF. O objetivo é evitar que a capacidade técnica demonstrada por Mourão antes de sua morte seja herdada ou continuada por outros membros da organização que ainda não foram capturados pela Compliance Zero.
Para o sistema de justiça brasileiro, o ano de 2026 está sendo marcado por esse confronto direto entre o Estado e o que parece ser um novo modelo de criminalidade corporativa. O pedido de Magno Malta e Eduardo Girão joga um holofote necessário sobre a fragilidade das autoridades diante de grupos que possuem recursos quase ilimitados para monitorar e atacar. A resposta da Polícia Federal ao pedido definirá o nível de proteção que a democracia brasileira está disposta a oferecer aos seus magistrados em tempos de guerra híbrida.
Por fim, o destino da Operação Compliance Zero permanece sob a relatoria de André Mendonça, que agora conta com o apoio vocal de parte do Legislativo para exercer suas funções. A morte de “Sicário” em Belo Horizonte serve como um lembrete sombrio dos riscos envolvidos em investigações de alta cúpula. Enquanto a PF decide sobre o aumento do contingente de segurança, o país aguarda os próximos passos de um inquérito que promete redesenhar os limites entre o setor bancário e a legalidade institucional no Brasil.

