Um país pode sobreviver quando a comunicação é cortada na raiz?
O Nepal, já marcado por décadas de instabilidade política, mergulha agora em uma espiral sombria após a decisão do governo de proibir o acesso às redes sociais.
O que parecia uma medida de “controle” para conter protestos digitais rapidamente transbordou para as ruas, onde o corpo a corpo substituiu os cliques.
O episódio mais brutal ocorreu quando a esposa do primeiro-ministro foi retirada à força de sua própria casa e queimada viva por manifestantes em fúria.
Esse ato bárbaro, além da tragédia pessoal, tornou-se o símbolo cruel da erosão completa da legitimidade estatal.
A proibição das redes sociais foi apresentada como um recurso emergencial para “restaurar a ordem”. Mas qual ordem pode nascer do silenciamento?
O poder, quando tenta calar vozes digitais, frequentemente desperta gritos ainda mais violentos no espaço físico.
O Nepal, nesse sentido, tornou-se um laboratório perverso do que acontece quando o governo confunde controle da informação com estabilidade política.
As redes sociais, por mais tóxicas que possam ser, cumprem também a função de válvula de escape. Sem elas, a pressão encontra saídas mais destrutivas.
É como se o governo tivesse retirado a tampa de uma panela de pressão, acreditando ingenuamente que o vapor se dissiparia sozinho.
A sociedade nepalesa, já dividida por linhas étnicas, religiosas e de classe, agora encontra na ausência de voz digital um pretexto para romper os limites da violência.
O ataque à esposa do primeiro-ministro não é apenas vingança: é a encarnação de um ódio acumulado e da sensação de que não há mais canais legítimos de contestação.
O que está em jogo não é apenas a segurança de políticos ou familiares, mas a própria viabilidade de um Estado que já vinha fragilizado.
O governo acreditava que poderia gerir o caos com censura, mas a história mostra o contrário: quando a palavra é proibida, o fogo se alastra.
O Nepal, geograficamente espremido entre a Índia e a China, pode se tornar mais um ponto de instabilidade regional — e não apenas doméstica.
A China observa de perto, interessada em expandir sua influência; a Índia teme o contágio de revoltas em seus próprios territórios fronteiriços.
Enquanto isso, a população nepalesa é usada como massa de manobra, sem direito a narrar sua própria dor no espaço público digital.
A pergunta que ecoa é perturbadora: se a censura já custou uma vida tão simbólica, quantas mais serão sacrificadas até que se reconheça que o silêncio não é governabilidade?
Talvez o maior erro do governo tenha sido esquecer que a comunicação, mesmo conflituosa, é um elemento vital da democracia — e que sufocá-la pode ser mais letal do que qualquer insurreição.
O futuro do Nepal dependerá de como (ou se) conseguirá restaurar o diálogo. Mas, por ora, o país parece preferir o caminho do fogo ao da palavra.

