A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou recentemente uma mudança significativa: cirurgiões-dentistas agora estão autorizados a prescrever o medicamento Mounjaro (tirzepatida), conhecido popularmente como “caneta emagrecedora”. A decisão gerou debates éticos, técnicos e clínicos entre diferentes setores da saúde.
A autorização é restrita a um contexto específico: pacientes obesos com apneia obstrutiva do sono (AOS) podem receber a tirzepatida prescrita por dentistas especializados na odontologia do sono.
Essa nova indicação terapêutica foi oficializada por meio da Anvisa e publicada no Diário Oficial da União, reforçando a atuação dos dentistas na gestão de uma condição médica sistêmica, e não apenas bucal.
A inclusão dos dentistas como prescritores representa um marco inédito: é a primeira vez no Brasil que um fármaco com efeito sistêmico tão relevante para apneia do sono é disponibilizado por profissionais da odontologia, desde que dentro dos limites legais.
O Mounjaro já tinha outras indicações aprovadas no Brasil — inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 —, mas com a nova diretriz, sua aplicação se estende para pacientes com sobrepeso ou obesidade e AOS.
Em junho de 2025, a Anvisa também autorizou o uso da tirzepatida para controle crônico de peso, principalmente em pessoas com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30, ou com IMC superior a 27 se houver comorbidades.
A decisão da Anvisa sensibiliza para a importância de um acompanhamento multidisciplinar. O Conselho Federal de Odontologia (CFO) destaca que, embora os dentistas tenham autonomia para prescrever, é crucial considerar fatores como comorbidades e interações medicamentosas.
No quadro da apneia obstrutiva do sono, a tirzepatida oferece uma nova opção terapêutica, uma vez que estudos clínicos demonstraram redução de episódios de obstrução das vias aéreas superiores, traduzindo-se em menos pausas respiratórias e melhora da qualidade de vida.
Entretanto, a ampliação da prescrição levanta preocupações. Especialistas alertam para os riscos associados ao uso de “canetas emagrecedoras”, como efeitos gastrointestinais, flacidez, queda de cabelo, dores articulares e até hemorroidas.
Parte da inquietação decorre da possibilidade de prescrição inadequada ou uso indiscriminado se não houver supervisão estrita dos dentistas, principalmente em pacientes que não se encaixam exatamente nos critérios clínicos definidos.
O CFO reforça que os dentistas devem atuar de forma responsável: “com grandes conquistas, vêm grandes responsabilidades”, afirmou uma conselheira, sublinhando a necessidade de diagnóstico criterioso antes da prescrição.
Do ponto de vista legal, a prescrição de Mounjaro por dentistas está embasada na Lei nº 5.081/66, que regula o exercício da profissão odontológica, autorizando o uso interno e externo de fármacos indicados para a odontologia.
A Anvisa também adotou medidas de controle mais rigoroso para os medicamentos do tipo GLP-1 (como a tirzepatida): receitas agora devem ser retidas nas farmácias, com validade de até 90 dias, como forma de coibir o uso irregular.
Esse controle mais rígido responde a preocupações da agência com eventos adversos relatados em casos de uso fora das indicações aprovadas, evidenciando a necessidade de regulação mais severa.
A Anvisa, por meio de sua gerência de produtos controlados, destaca que a retenção da receita permitirá maior rastreabilidade desses medicamentos nas farmácias, reforçando a vigilância sanitária.
No voto oficial da Anvisa que aprovou a retenção da receita, há menção à necessidade de garantir que a tirzepatida não seja banalizada para usos estéticos, preservando seu uso terapêutico adequado.
Por outro lado, há quem defenda que a ampliação da prescrição pode facilitar o acesso ao tratamento para pacientes que antes não tinham opção medicamentosa eficaz para a AOS, desde que o dentista esteja capacitado.
Organizações de odontologia do sono veem a medida como uma evolução da prática clínica, integrando a farmacologia ao diagnóstico buco-respiratório e fortalecendo a abordagem terapêutica.
Ainda assim, os mesmos especialistas ressaltam que o uso da tirzepatida deve estar sempre acompanhado por avaliação médica, nutricional e de outras especialidades, para mitigar possíveis riscos.
Do ponto de vista econômico, embora o Mounjaro represente uma ferramenta poderosa, seu custo elevado tem sido apontado como barreira para larga adoção, especialmente fora de contextos clínicos restritos.
A decisão da Anvisa marca um momento importante na regulação de medicamentos para obesidade e distúrbios respiratórios, combinando inovação terapêutica com responsabilidade sanitária. Em resumo, a permissão para que dentistas prescrevam Mounjaro para pacientes obesos com apneia do sono abre novas frentes de tratamento, mas exige responsabilidade, capacitação e monitoramento rigoroso para garantir a segurança e eficácia do uso.

