“Anos pedindo socorro” Mulher e companheiro são mortos em SP por ex companheiro

A cidade de Botucatu, no interior de São Paulo, tornou-se o epicentro de uma discussão nacional sobre a falência das redes de proteção à mulher após a confirmação da morte de Júlia Gabriela Bravin Trovão, de 29 anos. Internada em estado gravíssimo desde o último sábado (21), Júlia não resistiu aos ferimentos causados por um disparo de arma de fogo na região da cabeça e teve seu óbito confirmado na terça-feira (24). O ataque, perpetrado por seu ex-companheiro, Diego Sansalone, já havia vitimado fatalmente no local o atual parceiro de Júlia, Diego Felipe Corrêa da Silva, de 34 anos.

O crime é carregado de simbolismos trágicos que expõem as vísceras de um sistema judiciário muitas vezes lento e burocrático. Júlia Gabriela não era uma vítima silenciosa; ao longo dos últimos cinco anos, ela buscou ajuda institucional de forma reiterada, registrando pelo menos 10 boletins de ocorrência contra o agressor por ameaças, injúrias e perseguições. O histórico de violência era vasto e documentado, pintando o retrato de uma tragédia que se desenhava sob os olhos das autoridades de Botucatu e que culminou em um desfecho letal.

A indignação pública atingiu o ápice com a revelação de que Júlia teve um pedido de medida protetiva negado pela Justiça na última sexta-feira (20), exatamente um dia antes do atentado. A decisão judicial, que considerou que não havia elementos de urgência suficientes no momento para restringir a liberdade de locomoção do agressor, tornou-se o centro de uma polêmica sobre os critérios de avaliação de risco em casos de violência doméstica. Para especialistas em direito das mulheres, o Estado falhou em sua missão primordial de garantir a integridade física de uma cidadã sob ameaça comprovada.

O cenário do crime foi marcado por uma brutalidade que chocou até mesmo os investigadores mais experientes. O ataque ocorreu enquanto as vítimas estavam dentro de um veículo no Jardim Cambuí, acompanhadas por duas crianças: o filho de Júlia com o agressor, de apenas 8 anos, e a filha de Diego Felipe, de 7 anos. Após efetuar os disparos, o veículo desgovernou-se e colidiu contra um poste de iluminação pública. O assassino, em um ato de frieza, retirou o próprio filho do carro e fugiu do local, deixando a outra criança aterrorizada em meio aos corpos e aos escombros do automóvel.

A fuga de Diego Sansalone mobilizou diversas forças policiais da região, terminando apenas no domingo (22), quando ele foi localizado em uma estrada rural entre Botucatu e Pardinho. Ao ser detido, ele não ofereceu resistência e confessou o crime, alegando que agiu motivado pelo inconformismo com o novo relacionamento da ex-companheira. O agressor permanece preso preventivamente e deve ser indiciado por feminicídio, homicídio qualificado e exposição de menores a perigo, uma vez que a vida das crianças foi colocada em risco durante os disparos e a colisão.

O “e daí?” institucional desta ocorrência reside na urgente necessidade de reformular os protocolos de análise de medidas protetivas de urgência no Brasil. O caso de Júlia demonstra que a contagem quantitativa de denúncias nem sempre é traduzida em proteção qualitativa pelo Poder Judiciário. Em 2026, a discussão sobre a obrigatoriedade de monitoramento eletrônico para agressores com múltiplos registros de ameaça ganha força, buscando evitar que novas vidas sejam perdidas no intervalo entre o pedido de ajuda e a canetada do magistrado.

A filha de Diego Felipe, que sobreviveu ao ataque mas presenciou a morte do pai e da madrasta, sofreu ferimentos leves decorrentes do impacto do veículo e está recebendo acompanhamento psicológico intensivo. O trauma imposto a essas duas crianças é imensurável e levanta questões sobre o suporte do Estado às vítimas indiretas do feminicídio. O filho do agressor, levado pelo pai durante a fuga, foi posteriormente entregue ao avô paterno, e sua situação de guarda agora será alvo de uma disputa judicial complexa e dolorosa.

O sepultamento de Júlia Gabriela, realizado na tarde desta quinta-feira (26), reuniu centenas de pessoas que pediam justiça e mudanças nas leis de proteção à mulher. O clima em Botucatu é de luto e revolta, com movimentos sociais organizando vigílias em frente ao fórum da cidade. A comunidade local cobra respostas sobre as razões técnicas que levaram à negativa da medida protetiva, questionando se houve negligência na análise do dossiê de denúncias que a vítima acumulava ao longo de meia década de perseguição.

Dentro da Polícia Civil, o inquérito busca agora identificar a origem da arma utilizada no crime. Diego Sansalone não possuía porte ou posse legal de arma de fogo, o que indica que ele recorreu ao mercado ilegal para concretizar seu plano de vingança. O rastreamento da arma é fundamental para identificar possíveis facilitadores que possam ter contribuído indiretamente para a execução do duplo homicídio. A investigação também apura se o agressor monitorava os passos das vítimas através de dispositivos eletrônicos ou redes sociais.

Para o sistema de justiça de São Paulo, o caso de Botucatu é uma mancha que dificilmente será apagada sem uma profunda autocrítica. O Tribunal de Justiça tem sido pressionado a emitir um esclarecimento detalhado sobre o rito processual seguido no pedido de Júlia. A morte de uma mulher que seguiu todos os trâmites legais — denunciando, documentando e peticionando — é a prova cabal de que a lei Maria da Penha, embora avançada, ainda esbarra na subjetividade de decisões que subestimam o potencial letal do sentimento de posse masculina.

O impacto deste crime reverbera para além das fronteiras do interior paulista, atingindo o debate nacional sobre o feminicídio em 2026. Parlamentares e ativistas utilizam o exemplo de Júlia para defender o uso de algoritmos de inteligência artificial que auxiliem juízes a identificar casos de “alto risco de morte”, cruzando dados de boletins de ocorrência e antecedentes criminais de forma automatizada. A meta é que a tecnologia ajude a superar o erro humano ou a falta de sensibilidade diante de históricos de violência recorrente.

Por fim, a história de Júlia e Diego Felipe encerra-se com o silêncio de um túmulo, mas deixa um clamor por mudanças que não pode ser ignorado. A vida da jovem de 29 anos foi interrompida no momento em que ela tentava reconstruir sua felicidade, provando que, para o agressor contumaz, a liberdade da mulher é vista como uma afronta pessoal. Que a memória das vítimas de Botucatu sirva para que o sistema de justiça entenda, de uma vez por todas, que no combate à violência doméstica, o tempo do processo muitas vezes corre na contramão do tempo da vida.

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