A iniciativa “Prescrição Sueca”, que transforma o turismo em uma ferramenta de saúde pública e permite que médicos recomendem viagens ao país, é um movimento de marketing geopolítico astuto disfarçado de intervenção terapêutica.
Ao vincular o contato com a natureza e o estilo de vida nórdico (caminhadas, saunas, ar livre) ao tratamento de estresse e à melhoria do sono, a Suécia está monetizando seu capital natural e sua imagem de país com alta qualidade de vida.
A Ciência do Friluftsliv e o Privilégio do Acesso
A proposta baseia-se em estudos científicos que validam o efeito terapêutico da natureza (forest bathing, ou friluftsliv, o conceito sueco de vida ao ar livre).
Contudo, o ceticismo nos obriga a confrontar a universalidade dessa “prescrição”.
Enquanto os suecos têm acesso imediato e gratuito a florestas e espaços públicos, para a maioria dos pacientes globais, essa prescrição implica um custo financeiro proibitivo (passagens, hospedagem e tempo de folga).
O tratamento, portanto, torna-se um privilégio de classe.
O Marketing da Utopia da Saúde
A “Prescrição Sueca” é uma jogada de soft power da Visit Sweden (o órgão de turismo). Ela vende a utopia do bem-estar nórdico como um produto exportável. A campanha sugere que a cura para o estresse moderno reside em adotar temporariamente o estilo de vida sueco.
É um endosso médico indireto que confere legitimidade científica à experiência turística. O país não está apenas convidando turistas; está recrutando “pacientes” para um tratamento exclusivo.
O “E Daí” da Saúde Turística
O “e daí” dessa iniciativa é que ela levanta a questão da responsabilidade médica. O médico, ao prescrever uma viagem, está endossando um produto turístico.
Embora o contato com a natureza seja inegavelmente benéfico, a sugestão de que apenas a viagem à Suécia (e não uma caminhada em um parque local ou um dia de folga) é a solução ideal, mistura a fronteira entre o conselho de saúde e o incentivo comercial.
A verdadeira lição da Suécia não está na viagem, mas na integração da natureza no cotidiano e no valor social dado ao tempo livre e ao lazer, algo que deve ser replicado em políticas públicas locais, e não apenas comprado como um pacote turístico internacional.

