A recente decisão do governo de Trindade e Tobago de autorizar o uso de seus aeroportos por forças militares dos Estados Unidos, em um contexto de tensões geopolíticas crescentes no Caribe, provocou reações fortes e divergentes na região. A medida, divulgada em meados de dezembro de 2025, ocorre num cenário marcado por disputas diplomáticas entre Washington e Caracas e tem implicações que vão além da cooperação tradicional em segurança pública.
O anúncio oficial do Ministério das Relações Exteriores de Trindade e Tobago explicou que a permissão para uso de aeroportos por aeronaves militares norte-americanas destina-se, em sua forma expressa, a operações logísticas — incluindo reabastecimento de suprimentos e rotação de pessoal — reforçando laços bilaterais e incentivando colaboração em questões de segurança regional.
Geograficamente, a proximidade entre o território caribenho e a costa venezuelana é um elemento central desse desenvolvimento. A distância entre os dois países é de apenas cerca de 11 quilômetros no ponto mais curto, fato que torna qualquer movimento militar significativo na região sensível para Caracas.
Autoridades de Trindade e Tobago sustentam que a medida não representa uma postura ofensiva contra nenhum país vizinho, mas sim o fortalecimento de capacidades conjuntas para combater o crime transnacional, como tráfico de drogas e outros ilícitos que afetam a estabilidade interna e regional.
Apesar desse posicionamento oficial, o governo venezuelano reagiu com veemência à autorização concedida por Port of Spain. Delcy Rodríguez, vice-presidente da Venezuela, anunciou o cancelamento de contratos de fornecimento de gás natural com Trindade e Tobago, além de acusar o país caribenho de atuar como o que chamou de “porta-aviões dos Estados Unidos” no Caribe.
Rodríguez caracterizou a ação como um ato de “vassalagem” e de hostilidade, acrescentando que a instalação de um sistema de radar dos EUA em Tobago agrava ainda mais a situação de tensão entre Caracas e seus vizinhos.
Do outro lado, a primeira-ministra de Trindade e Tobago, Kamla Persad-Bissessar, rejeitou as acusações venezuelanas, qualificando-as como propaganda e defendendo a soberania de sua nação para tomar decisões alinhadas com seus interesses de segurança interna e política externa.
Especialistas em geopolítica regional observam que esta cooperação militar ampliada pode estar inserida em um contexto maior de presença dos EUA no Caribe, que inclui a implantação de sistemas de vigilância e participações em exercícios conjuntos, movimentos que estão sendo interpretados por Caracas como uma potencial preparação para pressões adicionais sobre o governo de Nicolás Maduro.
O contexto de tensão já vinha se manifestando nos últimos meses, com a realização de exercícios militares conjuntos entre os Estados Unidos e as forças de defesa de Trindade e Tobago em águas próximas à Venezuela, considerados por Caracas como provocativos.
Desde outubro de 2025, a presença de navios de guerra dos EUA na região, como o USS Gravely, acompanhada de manobras militares, tem sido um ponto de discórdia diplomática, com discursos públicos duros por parte do governo venezuelano.
Adicionalmente, relatos de interferência em sinais de GPS e outras atividades relacionadas à presença militar dos EUA foram captados na área, embora autoridades norte-americanas não tenham comentado oficialmente sobre tais incidentes.
Analistas regionais destacam que a cooperação militar entre Trindade e Tobago e os Estados Unidos ocorre em meio a um realinhamento mais amplo de relações estratégicas no Caribe, onde questões ligadas a narcotráfico, migração e segurança energética se entrelaçam com disputas diplomáticas.
Por sua vez, segmentos da oposição política em Trindade e Tobago criticaram a decisão de abrir os aeroportos às forças norte-americanas, argumentando que isso pode comprometer a neutralidade do país e arrastar a nação pequena para um conflito que não é diretamente seu.
Organizações civis e parte da população local também expressaram preocupações sobre os riscos à soberania nacional e sobre o potencial de escalada das tensões com a vizinha Venezuela, que se intensificaram nos últimos meses.
O governo caribenho continua a afirmar que a colaboração com os Estados Unidos se baseia em interesses compartilhados de segurança regional e que não representa uma ameaça a nenhum estado soberano.
Enquanto isso, Caracas tem mantido um discurso de alerta permanente, denunciando o que considera ações desestabilizadoras e repetindo chamadas à vigilância nacional e internacional contra a expansão da presença militar estrangeira tão próxima de suas fronteiras.
As relações diplomáticas entre Venezuela e os países vizinhos, notadamente Trindade e Tobago, permanecem tensas, com intercâmbios de declarações públicas que refletem desconfiança e interesses geopolíticos divergentes.
No cenário internacional, essa dinâmica adiciona mais um capítulo às discussões sobre o papel dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, levantando questões sobre soberania, intervenção militar e cooperação em segurança.
Observadores acreditam que os desdobramentos futuros dependerão tanto da evolução das tensões bilaterais entre Caracas e Washington quanto da capacidade de mediação de organismos regionais e internacionais.
À medida que as negociações e interações diplomáticas prosseguem, a situação continuará a ser monitorada de perto por governos, analistas e comunidades afetadas, dado o potencial impacto sobre a estabilidade regional e as relações entre nações do Caribe e da América do Sul.

