Em uma operação que representa um golpe significativo na estrutura das máfias que operam na capital fluminense, a Polícia Civil do Rio de Janeiro prendeu, na manhã desta quinta-feira (26), o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho. Considerado um dos nomes mais influentes do jogo do bicho e da exploração de máquinas caça-níqueis no estado, ele era alvo de mandados de prisão expedidos no âmbito de investigações que o conectam não apenas à contravenção, mas a uma rede de violência e domínio territorial.
A prisão ocorreu em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade, área que historicamente serve de reduto para as lideranças das organizações criminosas que disputam o controle da jogatina. Adilsinho vinha sendo monitorado há meses por equipes de inteligência, que mapearam sua rotina e seus contatos com outros grupos paramilitares. A ação foi conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), com apoio de unidades de elite da polícia fluminense.
As investigações apontam que Adilsinho assumiu um papel de protagonismo após a fragmentação de antigos clãs de bicheiros no Rio de Janeiro. Ele é apontado como o mentor de uma expansão agressiva dos pontos de aposta, utilizando métodos que misturam a corrupção de agentes públicos com o emprego de força paramilitar. Além do jogo do bicho, sua organização é investigada por envolvimento com a lavagem de dinheiro através de empresas de fachada e eventos de entretenimento.
Um dos pontos mais sensíveis da trajetória de Adilsinho é sua suposta ligação com a guerra interna da cúpula do bicho, que resultou em diversos homicídios nos últimos anos. A polícia acredita que o controle de áreas na Zona Norte e na Baixada Fluminense era mantido sob um regime de “paz armada”, que frequentemente se rompia em disputas por pontos de máquinas eletrônicas. O bicheiro também é investigado por financiar escolas de samba e times de futebol como forma de angariar influência social e política.
O “e daí?” institucional dessa prisão reside no esforço do Estado em demonstrar que a era da impunidade para os “barões do bicho” está sob forte ataque. Por décadas, essas lideranças foram vistas como figuras intocáveis devido aos seus laços com a política e com a segurança pública. A captura de Adilsinho, somada a outras prisões recentes de bicheiros de alto escalão, indica uma mudança de postura do Ministério Público e das polícias em relação ao enfrentamento das máfias fluminenses.
Durante a busca em sua residência, os agentes apreenderam documentos, joias, grandes quantias em dinheiro e dispositivos eletrônicos que podem fornecer pistas sobre o fluxo financeiro da organização. O material será periciado para identificar como o dinheiro da contravenção é reinserido na economia formal. A Polícia Civil espera que o conteúdo dos celulares apreendidos ajude a revelar a rede de proteção que permitiu a Adilsinho permanecer foragido ou operando à sombra por tanto tempo.
A defesa de Adilson Oliveira Coutinho Filho ainda não se manifestou oficialmente sobre os detalhes da prisão, mas a tendência é que os advogados tentem impetrar pedidos de habeas corpus alegando ilegalidades nos mandados ou falta de provas diretas. No entanto, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro já sinalizou que manterá as medidas restritivas devido à periculosidade da organização e ao risco de obstrução das investigações em curso.
A repercussão da prisão no mundo do samba e nos bastidores do poder no Rio foi imediata. Adilsinho era visto como um articulador habilidoso, capaz de transitar entre diferentes esferas da sociedade. Sua saída de cena temporária cria um vácuo de poder que preocupa as autoridades de segurança, que agora temem uma nova onda de violência interna entre seus subordinados e rivais que buscam assumir o controle dos territórios deixados pela liderança presa.
O sistema prisional já foi alertado para a necessidade de protocolos de segurança rigorosos para a custódia do bicheiro. O histórico de líderes do bicho que continuam comandando seus impérios de dentro das celas é uma preocupação constante para a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap). Por isso, há uma discussão em curso sobre a possibilidade de transferência de Adilsinho para um presídio federal de segurança máxima, visando o isolamento total de seus comparsas.
O impacto econômico nas áreas dominadas pela organização de Adilsinho também é monitorado. A exploração de serviços como venda de gás, sinal de internet e transporte clandestino — atividades frequentemente associadas a esses grupos — pode sofrer oscilações com a desestruturação do comando central. A Polícia Civil pretende usar as provas colhidas para sufocar financeiramente o grupo, bloqueando contas bancárias e sequestrando bens avaliados em milhões de reais.
Para a população carioca, a prisão de Adilsinho é mais um capítulo da eterna novela policial que define o cotidiano da cidade. A sensação de que o crime organizado possui raízes profundas no Estado é um desafio que as operações pontuais tentam mitigar. A eficácia desta prisão será medida não apenas pela permanência dele na cadeia, mas pela capacidade da justiça em desmontar definitivamente os mecanismos de corrupção que sustentam o jogo do bicho há mais de um século.
Por fim, o caso de Adilsinho reforça que a modernização do crime exige uma modernização equivalente da investigação. O uso de perícia contábil e interceptações telemáticas foi fundamental para chegar ao endereço do bicheiro. O Rio de Janeiro observa atentamente os próximos passos desse processo, esperando que a justiça não se deixe seduzir pela influência dos réus e que a condenação sirva como um marco na luta contra o crime organizado de colarinho branco e fuzil na mão.

