É possível salvar o planeta com um evento cuja fundação é corroída por denúncias de desperdício e má gestão?
A COP 30, a ser sediada em Belém, no coração da Amazônia, não é apenas uma cúpula de líderes. É um paradoxo em construção.
Enquanto a retórica global exalta a urgência climática, a realidade local é assombrada pelo fantasma do superfaturamento e da infraestrutura improvisada.
O palco montado para a salvação verde está, ironicamente, revelando um canteiro de obras opaco.
A polarização pública, com cerca de um terço das menções negativas nas redes, é apenas o sintoma de uma desconfiança mais profunda.
A Nova Corrida do Ouro Verde
O termo “hipocrisia verde” não pode ser descartado como mero ataque ideológico. É a constatação de que o capital do ativismo se converteu em lucro fácil para a burocracia.
Estamos testemunhando uma nova corrida do ouro disfarçada de sustentabilidade.
O dólar verde, destinado a florestas e comunidades, chega em jatos executivos e se dissolve em contratos inflacionados e logística de emergência.
Belém se transformou, de repente, no epicentro de uma bolha imobiliária e de serviços, onde a crise de infraestrutura é apenas maquiada para quinze dias de performance.
A pergunta central é cruel: o custo operacional desse espetáculo compensa o ganho real e perene para a floresta ou para o povo amazônico?
O “e daí” financeiro das obras apressadas e caras é, no fim, um dano ambiental em si mesmo: o desperdício de recursos escassos.
O alto engajamento das críticas sobre superfaturamento sugere que o leitor exigente já ultrapassou o discurso e está atento à fatura.
A sustentabilidade, nesse contexto, vira apenas a etiqueta de preço, um verniz ético que justifica a alocação questionável de bilhões.
O Paradoxo da Segurança e a Imagem
A hipocrisia reside no contraste mais gritante: a prioridade.
Enquanto se mobiliza a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para proteger as delegações estrangeiras, a segurança e a infraestrutura da população local seguem negligenciadas.
O foco é a imagem internacional; a essência do desenvolvimento humano é deixada de lado.
A performance de virtude é dispendiosa, e o evento acaba por espelhar os vícios que ele deveria combater: má gestão, opacidade e priorização da elite.
O Risco Sistêmico da Governança
O cerne da questão não está no clima, mas na governança.
A COP, em sua essência, é um evento de compensação moral para o Norte global e um laboratório de capitalização para o Sul.
O evento exige uma infraestrutura de Primeiro Mundo em uma capital que opera sob as regras e vícios de um país em desenvolvimento.
O resultado não é a sustentabilidade, mas a inevitável improvisação e o desperdício.
Isso nos força a questionar: será que o aparato burocrático que gerencia a crise climática não é, ele próprio, um risco sistêmico?
As soluções climáticas, ironicamente, estão sendo erguidas sobre a base da instabilidade e do oportunismo econômico.
O Legado nas Notas Fiscais
O legado da COP 30 não será medido pelo volume de CO2 evitado ou pelos metros de floresta protegida nos acordos finais.
Será medido pela qualidade e pelo custo real do asfalto, dos viadutos e da infraestrutura que sobrar para Belém.
A crise de credibilidade é o real dano colateral. Enquanto o mundo busca líderes para a agenda verde, o que encontra é a fragilidade da transparência e a força do interesse próprio.
A lição é cética e brutal: o mercado da salvação climática é tão suscetível ao superfaturamento quanto qualquer obra pública. E até que se resolva a crise da gestão, o planeta continuará a ser salvo apenas no discurso.

