Quando especialistas dizem que a cerveja é a bebida alcoólica mais “segura”, o que exatamente está em jogo?
A afirmação, à primeira vista reconfortante, surge em meio a uma onda de intoxicações graves provocadas por destilados adulterados com metanol, uma substância letal que já deixou vítimas em diferentes regiões do país.
A comparação parece óbvia: a cerveja, produzida em larga escala e com processos industriais padronizados, teria menos risco de contaminação do que bebidas caseiras ou clandestinas. Mas reduzir a questão a um dilema entre o copo de cerveja e a dose de cachaça pode ser um equívoco simplificador.
O ponto central não é apenas qual bebida se consome, mas em quais condições ela circula. A adulteração com metanol não é um acidente de produção, é uma fraude econômica: álcool barato e tóxico usado para multiplicar o lucro de produtores ilegais.
Nesse cenário, a cerveja leva vantagem justamente por seu modelo de mercado. A logística de grandes indústrias, a vigilância sanitária e o monitoramento social tornam mais difícil a inserção de lotes adulterados sem repercussão imediata.
Ainda assim, o argumento da “segurança” precisa ser lido com cautela. Seguro em relação a quê? À presença de veneno, sem dúvida. Mas nunca aos efeitos do álcool em si, que permanecem intactos e, em excesso, devastadores.
Médicos insistem em um ponto incômodo: não existe álcool inofensivo. Mesmo a cerveja, símbolo de leveza e socialização, está associada a doenças hepáticas, cardiovasculares e neurológicas quando o consumo se torna frequente.
O risco da comunicação pública, nesse caso, é transformar uma mensagem de alerta em um salvo-conduto disfarçado. O consumidor pode interpretar “mais seguro” como “sem risco”, o que é radicalmente falso.
Na prática, o discurso funciona como uma metáfora da ilusão brasileira com o álcool: confundir tradição com imunidade. Porque se todos bebem cerveja, ela pareceria menos nociva do que realmente é.
O problema não é apenas cultural, mas político. O Brasil convive com fiscalização precária de bebidas, campanhas educativas tímidas e uma indústria poderosa que raramente é pressionada a assumir responsabilidades mais amplas sobre saúde pública.
Comparar cerveja a destilados adulterados é, portanto, um falso conforto. É como celebrar a ausência de veneno imediato enquanto se ignora o desgaste silencioso do corpo ao longo dos anos.
A intoxicação por metanol choca porque mata rápido. Já o álcool legal, consumido sem adulteração, mata devagar — e em escala muito maior.
Nesse sentido, a fala dos especialistas é um recado cifrado: não se trata de recomendar cerveja, mas de advertir sobre os riscos de mercados clandestinos que se expandem na sombra do Estado.
O consumo “seguro”, se é que existe, depende menos da escolha entre cerveja e cachaça e mais da decisão política de combater adulterações com fiscalização rigorosa.
Enquanto isso, ao consumidor resta a cautela. Desconfiar de preços baixos demais, priorizar fornecedores confiáveis, evitar bebidas sem procedência.
Mas nada disso elimina o dilema ético e sanitário maior: o álcool, por definição, é um risco calculado. A pergunta que fica não é qual bebida é “mais segura”, mas até que ponto uma sociedade pode normalizar uma droga que, mesmo em sua versão mais pura, cobra um preço altíssimo em saúde pública.
No fundo, discutir segurança na cerveja é falar sobre o desconforto de admitir que, no Brasil, a escolha nunca é entre risco e proteção — mas entre diferentes gradações do mesmo perigo.
E talvez o verdadeiro debate a ser travado não seja sobre o copo que levantamos, mas sobre a política que o sustenta.

