Presidente da Bolívia sanciona lei para instaurar ditadura

Date:

A crise política e social na Bolívia atingiu um ponto de não retorno e colocou a democracia do país vizinho em uma corda bamba perigosa após uma decisão polêmica tomada direto do palácio presidencial. O presidente boliviano, Rodrigo Paz, assinou e promulgou de forma oficial a polêmica Lei 1740, uma legislação que altera profundamente as regras sobre o funcionamento dos estados de exceção em todo o território nacional. A medida, que foi aprovada em votação relâmpago, está sendo vista por analistas internacionais e opositores como um mecanismo jurídico para abrir caminho para uma intervenção militar pesada contra os protestos de rua.

A canetada do chefe de Estado aconteceu justamente no momento em que a Bolívia completava mais de quarenta dias consecutivos de uma greve geral violenta, marcada por bloqueios de estradas estratégicas e confrontos diários entre trabalhadores. O clima de guerra civil opõe, de um lado, movimentos camponeses, sindicatos de trabalhadores e organizações indígenas e, do outro, as forças de repressão do Estado, como a polícia de choque. A principal exigência que unifica as vozes nas ruas é o pedido de renúncia imediata do presidente Rodrigo Paz do comando do país.

O ponto mais preocupante e debatido da nova lei é que ela dá autorização legal expressa para a realização de operações conjuntas permanentes envolvendo as Forças Armadas e a Polícia Boliviana no controle das cidades. Na prática, isso significa que o governo federal agora tem o poder de colocar tanques de guerra e soldados do Exército para enfrentar diretamente os trabalhadores civis que estão fazendo os protestos. Para grande parte dos juristas e jornais independentes da região, essa manobra representa uma tentativa velada de instaurar uma ditadura militarizada para esmagar a oposição.

O tamanho do travamento econômico e social provocado pela revolta popular foi detalhado em um relatório técnico divulgado nesta terça-feira pela Administradora Boliviana de Carreteras, a ABC, que monitora a malha rodoviária do país. De acordo com o órgão oficial, havia pelo menos setenta e nove grandes rodovias nacionais completamente bloqueadas por barricadas de pneus queimados, pedras e galhos de árvores. O cenário de paralisia impede o deslocamento de mercadorias e pessoas, isolando cidades inteiras do restante do continente.

O mapa dos conflitos mostra que a resistência mais dura está concentrada na região de Cochabamba, que registrava vinte e dois pontos de bloqueio total nas estradas que cortam o vale produtor do país. A capital governamental, La Paz, aparecia logo em seguida com dezenove pontos de interrupção nas vias de acesso, deixando o palácio presidencial praticamente cercado por manifestantes. Outros departamentos importantes, como Potosí com quinze bloqueios e Chuquisaca com dez, demonstram que a revolta se espalhou pelo país de forma uniforme.

Até mesmo na rica e empresarial região de Santa Cruz de la Sierra, que historicamente costuma adotar uma postura mais conservadora nos conflitos nacionais, o trânsito continuava interrompido na altura do município de San Julián. Essa estrada específica funciona como uma artéria vital de ligação com o departamento de Beni, e o seu fechamento cortou o fluxo de caminhões de carga que abastecem os grandes frigoríficos e os portos secos de exportação da agroindústria.

Toda essa gigantesca onda de mobilizações populares começou a ganhar corpo logo no dia primeiro de maio, aproveitando as marchas do Dia do Trabalhador para canalizar a insatisfação popular acumulada. O movimento reúne grupos de camponeses sem terra, comunidades indígenas andinas e sindicatos de transportadores que se levantaram contra a agenda de privatizações e o programa econômico de corte neoliberal que o presidente tenta implementar. A população reclama que o custo de vida disparou e que os serviços públicos básicos estão sendo destruídos.

As consequências práticas dessas mais de seis semanas de estradas fechadas começaram a cobrar um preço caríssimo e desesperador da população das grandes cidades bolivianas, gerando desabastecimento de itens essenciais de sobrevivência. Os estoques de alimentos frescos nos supermercados zeraram, as farmácias já não encontram medicamentos para doenças crônicas e até os hospitais emitiram alertas sobre a falta crítica de cilindros de oxigênio medicinal. O comércio local está operando com as portas fechadas pelo medo de saques generalizados.

A crise dos combustíveis mudou completamente a paisagem urbana da capital, La Paz, onde os motoristas de caminhão e ônibus particulares passaram a viver e dormir dentro de seus próprios veículos nas filas gigantescas dos postos de gasolina. Os motoristas passam dias inteiros acampados no asfalto frio das avenidas esperando a chegada de algum caminhão-tanque escoltado, na esperança de conseguir racionar alguns poucos litros de diesel ou gasolina para trabalhar.

Na hora de assinar o decreto que colocou a nova lei em vigor, o presidente Rodrigo Paz tentou construir uma narrativa oficial de salvação nacional, apresentando o texto rígido como uma ferramenta necessária para a defesa da ordem constitucional da Bolívia. Em seu discurso oficial transmitido em rede nacional de televisão, o governante declarou aos cidadãos que a medida foi criada para proteger a integridade física dos bolivianos e fazer cumprir as leis. A fala presidencial buscou acalmar os investidores estrangeiros que temem a perda de contratos no país.

No entanto, para os líderes sindicais e defensores dos direitos humanos que lideram as marchas, o discurso patriótico do presidente serve apenas para esconder o verdadeiro e cruel conteúdo da nova legislação, que é dar uma cobertura de legalidade para a violência militar. O círculo próximo do governo quer garantir que os oficiais do exército que utilizarem força letal contra os manifestantes nas ruas fiquem protegidos contra futuros processos judiciais por violações de direitos fundamentais.

O próprio presidente boliviano acabou deixando claro o caráter autoritário e implacável da medida ao fazer declarações agressivas associando os protestos populares legítimos a organizações de narcoterrorismo internacional. Ao rotular os camponeses e trabalhadores grevistas como terroristas financiados pelo crime organizado, o governo busca construir a desculpa perfeita perante a opinião pública para justificar o uso de armas de guerra contra a sua própria população. A Bolívia inicia uma fase sombria de sua história recente, onde o diálogo foi substituído pelos fuzis nas ruas.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Compartilhe

Inscreva-se

Popular

Mais da categoria:

Lourdes Melo oficializa pré-candidatura ao Governo do Piauí e defende salário mínimo de R$ 7 mil

O cenário político do Piauí começou a ganhar contornos...

O país onde se trabalha menos e se vive melhor na Noruega, a jornada de trabalho é das 09 às 15

O debate global sobre a quantidade de horas que...

Alunos descobrem perfil de professora em plataforma adulta e exigem notas altas em troca de silêncio

O ambiente escolar de uma comunidade no estado da...

Carro elétrico vai ficar mais caro e terá impostode até 35% em 2027

O mercado automobilístico nacional e os consumidores que planejam...