Idosa de 90 anos entra na escola para aprender a escrever: “Eu não tive a oportunidade”

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O relógio da vida corre em ritmos diferentes para cada pessoa, mas uma história emocionante vinda das salas de aula da rede pública mostra que nunca é tarde demais para mudar o próprio destino. Uma idosa de noventa anos de idade transformou-se no maior símbolo de inspiração de sua comunidade ao decidir que era o momento de realizar um sonho antigo. Ela resolveu arrumar a mochila, apontar o lápis e enfrentar o desafio de voltar a estudar para aprender a ler e a escrever, provando que a vontade de evoluir não tem prazo de validade.

A jornada dessa estudante tão especial começou no século passado, em uma época em que o acesso à educação no Brasil era um privilégio para poucos e uma realidade quase impossível para meninas de origem humilde. Naquela infância distante, as prioridades das famílias eram ditadas pelas dificuldades econômicas e pela cultura da época, que enxergava as mulheres apenas como força de trabalho. O destino da maioria das garotas era ajudar nas tarefas domésticas pesadas ou trabalhar na roça desde muito cedo para garantir o sustento da casa.

Por conta dessa estrutura social rígida, os livros, os cadernos e o ambiente escolar foram deixados de lado, substituídos por uma rotina cansativa de obrigações e cuidados com a família. O tempo passou, os anos se transformaram em décadas, e a rotina da vida adulta engoliu os antigos desejos de juventude da idosa. Ela cresceu, trabalhou duro, constituiu sua própria família e ajudou a criar filhos e netos, mas sempre carregou consigo um incômodo silencioso guardado no fundo do peito.

Não saber decifrar as letras das placas das ruas, não conseguir ler as instruções de um remédio ou depender de alguém para assinar o próprio nome eram pequenas barreiras diárias. Essa dependência forçada criava um sentimento de exclusão em um mundo que funciona totalmente baseado na palavra escrita e nos códigos visuais. Apesar de ter acumulado uma sabedoria prática imensa ao longo de quase um século de vivências, a falta do diploma de alfabetização continuava sendo uma ferida aberta em sua trajetória pessoal.

A grande reviravolta aconteceu recentemente, quando a idosa decidiu que as desculpas sobre a idade avançada ou o cansaço físico não seriam mais fortes do que o seu desejo de autonomia. Com o apoio inicial e o incentivo carinhoso de seus familiares mais próximos, ela se matriculou em uma turma voltada para a Educação de Jovens e Adultos, o famoso EJA. O primeiro dia de aula foi cercado por um misto de ansiedade e coragem, marcando o reencontro com uma oportunidade que lhe foi negada há mais de oitenta anos.

A chegada da nova aluna de noventa anos transformou completamente a dinâmica e o clima dentro da sala de aula, impactando tanto os professores quanto os colegas de turma mais jovens. Ver uma pessoa que já atravessou tantas eras históricas se esforçando para segurar o giz e coordenar os movimentos da escrita funciona como uma injeção de ânimo para os demais estudantes. Muitos rapazes e moças que pensavam em desistir do curso por conta do cansaço do trabalho encontram nela o motivo ideal para continuar tentando.

Os professores que acompanham o processo de alfabetização relatam que o rendimento e a dedicação da idosa são exemplares, demonstrando uma paciência admirável a cada nova lição concluída. Aprender a traçar as vogais e a juntar as primeiras sílabas na terceira idade exige um esforço motor e cognitivo muito maior do que na infância, mas a estudante compensa as dificuldades com foco. Cada palavra nova descoberta no quadro-negro é comemorada por ela como se fosse a conquista de um grande campeonato esportivo.

Essa trajetória vitoriosa joga luz sobre a importância vital de programas públicos voltados para a erradicação do analfabetismo entre a população da terceira idade no país. Especialistas em educação apontam que o Brasil ainda carrega uma dívida histórica enorme com os idosos que não tiveram a chance de frequentar a escola no passado. Garantir que essas pessoas tenham acesso ao universo das letras é uma forma de inclusão social e de devolução da cidadania que foi roubada por falta de oportunidades.

A internet e as redes sociais ajudaram a espalhar a história da simpática estudante, gerando uma onda de comentários carinhosos e mensagens de apoio vindas de internautas de todos os cantos. O caso acabou funcionando como um espelho para que muitas pessoas repensassem seus próprios objetivos de vida e percebessem que as barreiras do tempo são relativas. A imagem da idosa sorridente exibindo o caderno com as primeiras frases escritas à mão virou um símbolo potente de resiliência e amor pelo saber.

Nas entrevistas que costuma dar para os jornais locais, a nova leitora faz questão de deixar um conselho bem claro para quem acha que o tempo para estudar já passou. Ela defende que a mente humana precisa ser alimentada com novos desafios todos os dias e que o conhecimento é o único patrimônio que ninguém pode nos tirar. O orgulho de conseguir ler as primeiras mensagens no celular da família sem precisar de tradutor é a melhor recompensa de todo o esforço noturno.

Os planos da idosa para o futuro na escola não param na conquista da alfabetização inicial, já que ela demonstra interesse em continuar frequentando os próximos módulos de ensino. O desejo agora é conseguir ler livros de literatura inteiros e compreender melhor a história do país que ela ajudou a construir com o seu trabalho anônimo. A escola deixou de ser apenas um compromisso na agenda e passou a ser o combustível que traz uma nova alegria para os seus dias.

Enquanto as aulas avançam e os cadernos vão sendo preenchidos com histórias e redações autorais, a comunidade assiste de perto ao desabrochar de uma nova escritora. A lição mais valiosa dessa história de noventa anos não está escrita nos manuais pedagógicos das faculdades, mas sim na atitude de quem desafiou o tempo por um sonho. A história dessa senhora prova, de forma definitiva e bonita, que as letras têm o poder de libertar o ser humano em qualquer etapa da vida.

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