Donos de mercados reclamam de “furto de rótulos” da Coca com figurinhas da Copa

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O setor varejista de São Paulo e de diversas regiões do país enfrenta um desafio logístico e de segurança inusitado que tem causado prejuízos e transtornos operacionais nas últimas semanas. Uma série de supermercados tem relatado uma onda de furtos direcionada especificamente aos rótulos das garrafas de Coca-Cola de 600 ml. O fenômeno teve início imediatamente após a marca de refrigerantes lançar uma campanha promocional vinculada ao álbum de figurinhas oficial da Panini para a Copa do Mundo de 2026, que será realizada de forma conjunta no México, nos Estados Unidos e no Canadá.

A dinâmica dos furtos é rápida e silenciosa, aproveitando-se da alta circulação de clientes nos corredores de bebidas para realizar a remoção do papel que envolve as garrafas. Como as figurinhas colecionáveis estão impressas no verso dos rótulos, os entusiastas do álbum — muitos deles movidos pelo desejo de completar a coleção sem arcar com o custo do produto — retiram a embalagem e a levam consigo, deixando para trás as garrafas sem identificação nas prateleiras. Esse comportamento compromete a venda da mercadoria, uma vez que itens sem rótulo não podem ser comercializados devido às normas de vigilância sanitária e de direitos do consumidor.

A reportagem da Gazeta percorreu diferentes estabelecimentos e registrou a gravidade do problema em pelo menos três centros comerciais de grande movimentação na região metropolitana de São Paulo. Em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, uma unidade do Atacadista Assaí apresentou diversas fileiras de refrigerantes “despidos”, dificultando o trabalho dos repositores que precisam constantemente retirar os produtos avariados das gôndolas. A situação não é diferente no supermercado Sonda, também localizado em São Caetano, onde a gerência precisou reforçar a vigilância interna para conter a ação dos colecionadores mais ousados.

Além das grandes redes, o comércio de vizinhança também sente os impactos dessa prática de vandalismo e furto. Em um mercado de bairro situado no Sacomã, na zona sul da capital paulista, o proprietário relatou que dezenas de garrafas são perdidas diariamente. Para o pequeno comerciante, o prejuízo é mais acentuado, pois o produto sem o rótulo perde o código de barras necessário para o registro no caixa e, legalmente, não contém as informações nutricionais e de validade exigidas para a segurança do cliente, tornando o item impróprio para o consumo imediato.

A febre pelo álbum da Copa do Mundo de 2026, que promete ser o maior evento da história da FIFA, tem gerado comportamentos extremos entre colecionadores de todas as idades. O valor emocional e o mercado paralelo de troca de figurinhas raras incentivam indivíduos a buscarem atalhos ilegais para obter os cromos exclusivos da Coca-Cola, que geralmente não são encontrados nos envelopes tradicionais vendidos em bancas de jornal. Essa exclusividade transforma cada geladeira de supermercado em um alvo potencial para aqueles que priorizam a coleção em detrimento da ética comercial.

Para tentar conter a sangria financeira e o desperdício de produtos, as gerências dos supermercados em maio de 2026 estão adotando medidas de contingência que alteram a experiência de compra. Em algumas unidades, as garrafas de 600 ml foram retiradas das geladeiras de livre acesso e colocadas atrás dos balcões de atendimento ou próximas aos caixas, sob vigilância constante. Outras lojas optaram por envolver os pacotes de refrigerantes com fitas adesivas extras ou redes de proteção, o que aumenta o custo operacional e o tempo de reposição do estoque.

O impacto dessa prática estende-se também à imagem da marca e da fabricante de bebidas. A Coca-Cola, ao vincular sua promoção ao álbum da Panini, buscava estimular o consumo e a fidelidade dos torcedores, mas acabou criando um problema de segurança para seus parceiros varejistas. Representantes do setor de supermercados já entraram em contato com a fabricante para discutir formas de tornar o acesso às figurinhas menos vulnerável ao furto, sugerindo que o brinde seja entregue no ato do pagamento ou que a impressão ocorra de forma que a remoção do rótulo seja impossível sem danificar o conteúdo.

Especialistas em segurança corporativa apontam que o furto de rótulos é difícil de prevenir apenas com câmeras de segurança, devido à rapidez com que a ação ocorre. O cliente pode fingir que está analisando a validade do produto enquanto, com um movimento ágil, rasga o lacre lateral e esconde o papel no bolso ou dentro de outras embalagens. Em maio de 2026, os sistemas de monitoramento por inteligência artificial começam a ser treinados para identificar padrões de movimento suspeitos perto das prateleiras de bebidas, mas a implementação ainda é cara para a maioria dos comércios.

O problema também gera um debate sobre a responsabilidade dos pais e educadores, já que uma parcela considerável dos flagrantes envolve jovens e adolescentes. O ato de retirar um rótulo é muitas vezes visto pelos infratores como uma “travessura inofensiva”, sem a compreensão de que se trata de furto e dano ao patrimônio alheio. Comerciantes relatam que, ao serem abordados, muitos clientes demonstram surpresa ao saber que a retirada do papel impede a venda da garrafa, revelando uma desconexão com as regras básicas de consumo e legislação comercial.

Juridicamente, a remoção do rótulo pode ser enquadrada como furto qualificado ou dano, dependendo da interpretação da autoridade policial. Embora o valor individual de cada unidade seja baixo, a soma total dos prejuízos em uma rede de supermercados pode atingir cifras consideráveis, justificando a abertura de boletins de ocorrência. As autoridades de segurança de São Paulo orientam que os estabelecimentos preservem as imagens das câmeras para identificar infratores recorrentes que possam estar agindo de forma coordenada para abastecer mercados ilegais de figurinhas.

Enquanto a Copa do Mundo de 2026 se aproxima, a tensão entre o marketing promocional e a realidade das gôndolas permanece elevada. A Panini e a Coca-Cola ainda não anunciaram mudanças oficiais na mecânica da promoção, mas o mercado varejista pressiona por soluções que protejam o estoque físico sem prejudicar o engajamento dos torcedores. O fenômeno das garrafas “peladas” tornou-se um símbolo curioso e incômodo de como a paixão nacional pelo futebol pode, por vezes, transbordar para comportamentos antissociais no cotidiano das metrópoles brasileiras.

Por fim, a crise dos rótulos de 600 ml em São Paulo e no ABC Paulista encerra-se como um alerta para as marcas sobre a necessidade de planejar promoções que levem em conta a segurança no ponto de venda. A lama de incertezas sobre o prejuízo final ainda paira sobre os proprietários de mercados, que aguardam o fim da campanha para normalizar suas operações. Até lá, o consumidor comum continuará a se deparar com prateleiras remendadas e vigilância redobrada, em uma corrida contra o tempo para garantir que o refrigerante chegue à mesa com todas as informações e a dignidade que a lei e o bom senso exigem.

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