A Rússia planeja cortar a luz e internet á noite para que nasçam mais bebês

Em uma tentativa inusitada de combater o que as autoridades do Kremlin classificam como uma “catástrofe demográfica”, surge na Rússia uma proposta que parece extraída de um romance distópico de ficção científica.

Diante de taxas de natalidade em declínio histórico e do envelhecimento acelerado da população russa em 2026, legisladores e conselheiros do governo sugeriram uma medida drástica: o corte sistemático do acesso à eletricidade e à internet durante a noite. O objetivo seria forçar os cidadãos a abandonarem as telas e, na ausência de distrações digitais, incentivarem a “intimidade e a procriação”.

A lógica por trás da proposta é que o tempo de tela excessivo tornou-se o maior contraceptivo da era hipermoderna. Segundo os defensores da ideia, o uso compulsivo de smartphones até altas horas da madrugada não apenas prejudica o ciclo de sono, mas silencia a comunicação entre os casais, transformando o quarto em um ambiente de isolamento digital em vez de um espaço de conexão.

Ao “apagar as luzes” da nação, o governo espera criar um clima compulsório de introspecção familiar que resulte em um aumento imediato nos índices de fertilidade.

O “e daí?” geopolítico e sociológico desta medida reside no confronto entre a engenharia social e a liberdade individual. Críticos da proposta argumentam que o problema da natalidade na Rússia não é o sinal de Wi-Fi, mas o custo de vida proibitivo, os salários que não acompanham a inflação e a profunda incerteza sobre o futuro em um país marcado por sanções e conflitos. Para os opositores, sugerir que as pessoas terão filhos apenas porque a internet caiu é ignorar as barreiras econômicas estruturais que impedem um jovem casal de planejar uma família de forma segura.

Especialistas em demografia apontam que a Rússia vive o chamado “inverno demográfico”, agravado pela fuga de cérebros e pelas perdas humanas recentes.

Em 2026, a população russa encolhe a um ritmo que ameaça a sustentabilidade econômica e a defesa nacional. Medidas como o “imposto sobre a ausência de filhos” já foram discutidas anteriormente, mas o corte de energia representa um novo patamar de intervenção estatal na vida privada, tentando regular o comportamento humano através da privação de infraestrutura básica.

O debate também levanta questões sobre o impacto psicológico de tal medida. Psicólogos sociais alertam que a retirada forçada da conectividade pode gerar ansiedade e revolta em vez de romance. O lazer digital, em muitos casos, funciona como uma válvula de escape para o estresse do trabalho. Sem eletricidade para aquecimento, luz para leitura ou internet para entretenimento, o ambiente doméstico pode tornar-se um palco de tensões e tédio, o que é o oposto do “clima” necessário para a formação de vínculos afetivos profundos.

A tecnologia, que por um lado é acusada de afastar os casais, por outro é o que sustenta a economia russa em meio ao isolamento internacional. Um corte noturno de eletricidade e dados teria consequências catastróficas para setores que dependem de servidores ligados 24 horas, como sistemas bancários, logística e segurança. Assim, a proposta caminha em uma linha tênue entre a tentativa desesperada de salvar a nação através dos berços e o risco de paralisar o pouco que resta da funcionalidade tecnológica do país.

Dentro do contexto global de 2026, a Rússia não está sozinha na crise de natalidade, mas é o país que propõe as soluções mais extremas. Enquanto nações nórdicas investem em licença-paternidade estendida e na Dinamarca se ensina empatia (como o Klassen Tid), a abordagem russa foca na privação. A história de Nicollas, o vendedor que passou na USP, ou de Sara, que conquistou a bolsa no ProUni, nos mostra que a juventude busca o estudo e o trabalho para garantir o futuro; forçar a natalidade sem oferecer esse futuro parece um paradoxo difícil de sustentar.

A reação da juventude russa nas redes sociais (enquanto ainda há sinal) tem sido de ironia e indignação. Memes sobre “casamentos no escuro” e “bebês do apagão” circulam, refletindo o ceticismo de uma geração que valoriza sua conexão global. A ideia de que o Estado pode ditar o que acontece no quarto dos cidadãos através do controle do interruptor é vista como um retorno a épocas de vigilância total, onde o corpo do cidadão é tratado como um recurso produtivo do governo, e não como um indivíduo autônomo.

Por outro lado, alguns setores conservadores apoiam a medida como um “retorno às raízes”. Para esses grupos, a hipermodernidade digital é uma doença que desintegrou o tecido familiar tradicional. Eles acreditam que o silêncio forçado da noite traria de volta as conversas ao pé da mesa e a convivência real. No entanto, mesmo os apoiadores admitem que, sem resolver a questão dos baixos salários e da habitação precária, o “apagão do amor” pode acabar apenas em escuridão e frio, sem necessariamente gerar novos russos.

A análise final deste tema nos convida a refletir sobre a qualidade das nossas conexões. Se Paul, o vizinho de 82 anos, encontrou uma nova família através da presença física e da ajuda mútua, a proposta russa tenta fabricar essa conexão através da lei. A lição que tiramos é que a intimidade real floresce na segurança e na liberdade, não na imposição. O “clima para travessuras” que o governo russo quer criar pode acabar sendo o gatilho para uma revolta de uma população que não quer ser desconectada do mundo.

Por fim, o mundo observa com curiosidade e temor se a Rússia levará adiante esse experimento social de larga escala. Se os bebês do futuro serão fruto do amor ou da falta de sinal de Wi-Fi, é uma resposta que só o tempo dará. Enquanto isso, o debate continua aceso (literalmente): o que realmente faz uma população querer crescer? Para muitos, a resposta não está no interruptor da luz, mas na certeza de que, ao amanhecer, haverá um país estável e próspero para receber a próxima geração.

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