VITÓRIA – O Palácio Anchieta foi palco de um momento histórico para a ciência brasileira nesta quinta-feira (26). A bióloga e pesquisadora Tatiana Sampaio, expoente da neurobiologia nacional, foi condecorada com a Comenda Jerônimo Monteiro, a mais alta honraria concedida pelo Poder Executivo do Espírito Santo. O reconhecimento celebra o impacto revolucionário de suas pesquisas com a polilaminina, uma macromolécula desenvolvida no Brasil que abre caminhos inéditos para o tratamento de lesões medulares.
A cerimônia ocorreu em um contexto emblemático: a formatura da 5ª turma de Programas de Residência em Saúde do Instituto Capixaba de Ensino, Pesquisa e Inovação em Saúde (ICEPi).
Ao entregar a medalha, o governo estadual não apenas reconheceu a trajetória individual da cientista, mas também validou a importância da integração entre o ensino, o serviço de saúde e a inovação tecnológica para o desenvolvimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
A polilaminina, centro das investigações de Tatiana Sampaio na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é uma forma polimerizada da proteína laminina que atua como um potente estimulador da regeneração de nervos.
Em pacientes com lesões medulares — que historicamente enfrentam prognósticos de perda permanente de movimentos —, a substância tem demonstrado capacidade de promover a reconexão de tecidos nervosos, representando uma das maiores promessas da medicina regenerativa mundial.
Além da pesquisadora, a honraria estendeu-se aos parceiros estratégicos que viabilizaram o avanço dos ensaios clínicos. Representantes do laboratório Cristália, parceiro industrial fundamental na produção da molécula com grau farmacêutico, também foram homenageados.
A presença de pacientes que participaram dos estudos e apresentaram ganhos de sensibilidade e mobilidade deu o tom emocional à solenidade, servindo como prova viva da eficácia da ciência aplicada.
Em seu discurso de agradecimento, Tatiana Sampaio adotou um tom de forte soberania tecnológica. Com a voz embargada pela emoção, a bióloga enfatizou que a polilaminina é um patrimônio intelectual brasileiro, desenvolvida de ponta a ponta em laboratórios nacionais. “Ninguém vai poder dizer que a polilaminina não é nossa”, afirmou, reforçando que o Brasil tem plena capacidade de liderar a inovação farmacêutica global sem depender exclusivamente de patentes estrangeiras.
O “e daí?” institucional desta premiação reside no fortalecimento do ecossistema de biotecnologia no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. A homenagem em solo capixaba sinaliza que o estado busca se consolidar como um hub de apoio à inovação em saúde, atraindo cérebros e investimentos para áreas de alta complexidade.
A parceria entre a UFRJ e o Cristália é citada por especialistas como o modelo ideal de colaboração entre universidade pública e setor privado.
A polilaminina atua de forma engenhosa no microambiente da lesão. Em casos de trauma medular, forma-se uma cicatriz que impede a passagem de sinais elétricos; a molécula de Tatiana Sampaio funciona como um “andaime” biológico, permitindo que os neurônios voltem a crescer através dessa barreira. Esse mecanismo é fruto de décadas de pesquisa básica que, finalmente, atravessou a barreira acadêmica para chegar aos primeiros testes bem-sucedidos em humanos.
O reconhecimento governamental também serve como um combustível para as próximas etapas regulatórias. Para que um novo tratamento chegue ao mercado, ele precisa percorrer um longo caminho de validação junto à Anvisa. A visibilidade trazida pela Comenda Jerônimo Monteiro ajuda a atrair novos financiamentos, fundamentais para a realização de testes em larga escala (Fase 3), necessários para que o tratamento se torne acessível à população geral.
A trajetória de Tatiana Sampaio é um exemplo de resiliência na ciência nacional, muitas vezes marcada pela escassez de recursos. Ver uma cientista mulher receber a maior honraria de um estado é um marco representativo que inspira as novas gerações de pesquisadoras presentes na formatura do ICEPi.
O evento reforçou a ideia de que a inovação em saúde não é apenas um ganho econômico, mas uma ferramenta de dignidade humana.
Para os formandos em residência de saúde, o exemplo da polilaminina demonstra que o SUS pode ser o campo de aplicação para tecnologias de ponta.
A integração da pesquisa de Tatiana com o sistema público de saúde é o que garante que, no futuro, tratamentos para lesões medulares não sejam privilégio de poucos, mas uma realidade disponível para o cidadão comum atendido em hospitais universitários.
A solenidade no Palácio Anchieta encerrou-se com uma salva de palmas em pé para a pesquisadora e para os participantes do estudo. A emoção de Tatiana, ao dizer que nunca pensou que receberia tal prêmio, reflete a modéstia de quem mudou a ciência a partir da observação minuciosa de moléculas no laboratório.
O Brasil, nesta quinta-feira, sentiu-se um pouco mais orgulhoso de sua própria inteligência.
Por fim, a Comenda Jerônimo Monteiro outorgada a Tatiana Sampaio simboliza o reconhecimento de que a verdadeira riqueza de uma nação reside em seu capital intelectual.
A polilaminina agora carrega não apenas o selo de “Invenção Brasileira”, mas também o prestígio de uma honraria oficial que a coloca no centro das atenções da saúde pública em 2026. A caminhada continua, mas agora com o respaldo de quem entende que o futuro da medicina passa, obrigatoriamente, pelo reconhecimento de seus cientistas.

